Depois de Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, Bubista já não é apenas o treinador da surpresa. É o autor de um modelo de jogo.
Eduino Santos

Há um erro que muitos continuam a cometer ao olhar para Cabo Verde. Pensam que a seleção passou porque teve sorte. Não passou. Passou porque foi, provavelmente, a equipa mais disciplinada taticamente de toda a fase de grupos.
A imprensa internacional continua a destacar Vozinha, a emoção da qualificação e a história romântica do pequeno arquipélago que eliminou o Uruguai. Mas, lendo com atenção as análises dos jornais estrangeiros, percebe-se que há uma ideia comum: Cabo Verde criou mais oportunidades, controlou emocionalmente o jogo e foi superior à Arábia Saudita, mesmo aceitando o empate que lhe bastava a partir do momento que a Espanha estava a vencer o Uruguai
E isso merece uma análise mais profunda.
O jogo começou antes do apito inicial
Havia duas equipas em campo. Uma precisava desesperadamente de ganhar. A outra precisava, acima de tudo, de não perder.
A maioria dos treinadores teria recuado a equipa. Bubista fez outra coisa. Sacou de mais uma pedra da funda ao aceitar momentos de posse e com isso empurrou a Arábia Saudita para decidir o jogo.
Foi uma armadilha inteligente. Os sauditas nunca encontraram o equilíbrio entre atacar e proteger-se. Sempre que subiam linhas, deixavam espaços. Sempre que recuavam, o tempo jogava a favor de Cabo Verde. Foi um jogo psicológico. Depois com as entradas de Garry e Varela apostou na velocidade para marcar e teve oportunidades flagrantes que demostram algum descontrolo emocional anormal no jogo de Cabo Verde
Cabo Verde mudou de identidade… sem perder a identidade
Contra a Espanha, vimos um bloco muito baixo. Contra o Uruguai, um bloco médio preparado para explorar as transições. Contra a Arábia Saudita apareceu uma terceira versão. Uma equipa que soube ter bola. Que circulou quando era preciso. Que acelerou apenas nos momentos certos.
A imprensa espanhola chamou a atenção precisamente para isso.
Foi talvez o jogo mais ofensivo de Cabo Verde neste Mundial, com velocidade pelas alas e várias situações de finalização que faltaram apenas concretizar.
Isto significa uma coisa. Bubista não tem apenas um sistema.Tem princípios.
E adapta-os ao adversário. É futebol moderno.
O detalhe que mais impressionou
Há um momento que passou despercebido.
Laros Duarte isolou-se. Ficou cara a cara com Mohammed Alowais.
O guarda-redes saudita venceu o duelo. O mais interessante aconteceu depois.
Ninguém perdeu a cabeça. Ninguém acelerou o jogo.
Ninguém entrou em ansiedade. Cabo Verde continuou exactamente igual.
Foi talvez a maior demonstração de maturidade competitiva desta equipa.
Há poucos anos, um lance destes teria transformado o jogo numa correria.
Hoje não. Hoje existe um plano. E quando existe um plano, um golo falhado não destrói a equipa.
A grande vitória de Bubista
Desde o empate com a Espanha escrevemos que a “funda” de Bubista era estratégica.
Cada adversário obrigava a encontrar uma pedra diferente.
Contra Espanha foi a paciência. Contra o Uruguai foi a inteligência emocional.
Contra a Arábia Saudita foi o controlo do tempo.
Os sauditas queriam acelerar. Cabo Verde quis administrar.
Os sauditas precisavam de urgência. Cabo Verde ofereceu-lhes relógio.
No futebol, controlar o tempo é uma das formas mais sofisticadas de controlar o jogo.
A imprensa viu aquilo que muitos ainda não viram
A Reuters destaca que Cabo Verde criou as melhores oportunidades e foi a equipa mais perigosa, enquanto a Arábia Saudita, apesar de precisar da vitória, terminou com uma produção ofensiva muito pobre.
O The Guardian escreve que os sauditas raramente colocaram Vozinha em dificuldades e que Cabo Verde revelou novamente organização, serenidade e capacidade para competir ao mais alto nível.
Já a imprensa espanhola sublinha um aspecto particularmente interessante: pela primeira vez no torneio, Cabo Verde conseguiu combinar solidez defensiva com liberdade ofensiva, mostrando que esta equipa sabe adaptar-se sem perder a sua identidade.
Quando três leituras diferentes convergem na mesma ideia, deixa de ser opinião.
Passa a ser evidência.