Do “conto de fadas” ao respeito absoluto: já ninguém fala de surpresa, fala de uma equipa que sabe competir.
Eduino Santos

Durante anos, Cabo Verde foi um país que precisava de se apresentar ao mundo.
Hoje, é o mundo que apresenta Cabo Verde.
Depois do empate histórico com a Arábia Saudita, que garantiu pela primeira vez a qualificação para os dezasseis-avos-de-fina de um Campeonato do Mundo, a imprensa internacional voltou a colocar os Tubarões Azuis entre os grandes protagonistas da competição.
Mas há uma diferença importante. Depois do empate com a Espanha, falava-se de surpresa. Depois do empate com o Uruguai, falava-se de resistência.
Agora, depois da qualificação, fala-se de competência. Cabo Verde deixou de ser a história bonita do Mundial. Passou a ser uma equipa que merece estar entre as 32 melhores do planeta.
O “conto de fadas” continua
O jornal britânico The Guardian descreveu a campanha cabo-verdiana como um verdadeiro “conto de fadas” do Mundial. Destaca que, na estreia absoluta da seleção numa fase final, os Tubarões Azuis conseguiram eliminar um bicampeão mundial como o Uruguai e garantir a passagem aos dezasseis-avos-de-fina sem conhecer a derrota. (The Guardian)
O jornal sublinha ainda um dado revelador. Enquanto a Arábia Saudita precisava desesperadamente de vencer, foi Cabo Verde quem criou as melhores oportunidades e terminou o encontro por cima, demonstrando personalidade e maturidade competitiva. (The Guardian)
A equipa que conquistou os neutros
A agência Reuters já tinha antecipado este fenómeno antes do jogo, chamando Cabo Verde de uma das “queridinhas” (“darlings”) do Mundial. Depois da qualificação, essa perceção consolidou-se. A equipa de Bubista passou a ser vista como a seleção que todos os adeptos neutros gostam de acompanhar: organizada, humilde e capaz de competir sem complexos diante de qualquer adversário. (Reuters)
Não é apenas uma equipa africana. É uma história que conquistou o futebol mundial.
Vozinha continua a ser símbolo, mas a estrela chama-se coletivo
A imprensa continua naturalmente fascinada por Vozinha.
Aos 40 anos, o guarda-redes transformou-se num fenómeno global, multiplicando milhões de seguidores nas redes sociais e tornando-se um dos rostos do Mundial. (MarketWatch)
Mas, curiosamente, as análises mais profundas já não colocam o foco apenas no guarda-redes.
Os jornais internacionais começam a identificar aquilo que o Notícias do Norte vem escrevendo desde o empate frente à Espanha.
O segredo de Cabo Verde não é um jogador.
É o coletivo. É a organização. É a disciplina tática. É uma equipa onde onze jogadores pensam em conjunto.
Contra a Espanha, resistiu. Contra o Uruguai, respondeu. Contra a Arábia Saudita, soube gerir a pressão de jogar pelo resultado. Essa maturidade impressionou os observadores internacionais. (The Guardian)
A surpresa acabou
Talvez o maior elogio vindo da imprensa internacional seja precisamente este.
Já ninguém escreve:
“Cabo Verde voltou a surpreender.”
Agora escreve-se:
“Cabo Verde qualificou-se com mérito.”
A diferença parece pequena. Mas muda tudo. Surpresas acontecem uma vez.
Mérito constrói-se jogo após jogo. Depois de empatar com a Espanha.
Depois de empatar com o Uruguai. Depois de voltar a pontuar frente à Arábia Saudita.
Já ninguém pode falar em acaso.
O próximo capítulo chama-se Argentina
O destino colocou agora mais uma campeã do mundo no caminho dos Tubarões Azuis.
A Argentina aparece como favorita.
Naturalmente. Mas também a Espanha era favorita.
Também o Uruguai era favorito. E, no entanto, nenhum deles conseguiu vencer Bubista. E Cabo Verde tem direito a sonhar com o ditado “ não há duas sem três”
A imprensa internacional apresenta o duelo com a Argentina como um dos mais fascinantes dos dezasseis-avos-de-final de um lado, a maior potência do futebol mundial; do outro, o pequeno arquipélago africano que se recusou a aceitar o papel de figurante. (The Guardian) E que não vai jogar só para no fim trocar a camisola com o Messi
Editorial do Notícias do Norte
Há poucos dias escrevíamos que o maior ganho deste Mundial podia nem estar nos resultados.
Estava na identidade.
No reconhecimento internacional.
No orgulho de milhões de cabo-verdianos espalhados pelo mundo.
Hoje acrescentamos outra ideia.
Cabo Verde já não joga apenas por Cabo Verde.
Joga por todos os pequenos países que acreditam que organização, inteligência e coragem podem equilibrar as diferenças de dimensão, riqueza e tradição.
O mundo adotou os Tubarões Azuis.
Mas, acima de tudo, aprendeu finalmente uma lição simples.
Cabo Verde não veio ao Mundial para participar.
Veio para competir.
E essa talvez seja a maior vitória de todas.