O mundo rende-se aos Tubarões Azuis: imprensa internacional celebra a epopeia de Cabo Verde

27/06/2026 02:07 - Modificado em 27/06/2026 02:07

Do “conto de fadas” ao respeito absoluto: já ninguém fala de surpresa, fala de uma equipa que sabe competir.

Eduino Santos

Foto: FIFA World Cup

Durante anos, Cabo Verde foi um país que precisava de se apresentar ao mundo.

Hoje, é o mundo que apresenta Cabo Verde.

Depois do empate histórico com a Arábia Saudita, que garantiu pela primeira vez a qualificação para os dezasseis-avos-de-fina de um Campeonato do Mundo, a imprensa internacional voltou a colocar os Tubarões Azuis entre os grandes protagonistas da competição.

Mas há uma diferença importante. Depois do empate com a Espanha, falava-se de surpresa. Depois do empate com o Uruguai, falava-se de resistência.

Agora, depois da qualificação, fala-se de competência. Cabo Verde deixou de ser a história bonita do Mundial. Passou a ser uma equipa que merece estar entre as 32 melhores do planeta.

O “conto de fadas” continua

O jornal britânico The Guardian descreveu a campanha cabo-verdiana como um verdadeiro “conto de fadas” do Mundial. Destaca que, na estreia absoluta da seleção numa fase final, os Tubarões Azuis conseguiram eliminar um bicampeão mundial como o Uruguai e garantir a passagem aos dezasseis-avos-de-fina sem conhecer a derrota. (The Guardian)

O jornal sublinha ainda um dado revelador. Enquanto a Arábia Saudita precisava desesperadamente de vencer, foi Cabo Verde quem criou as melhores oportunidades e terminou o encontro por cima, demonstrando personalidade e maturidade competitiva. (The Guardian)

A equipa que conquistou os neutros

A agência Reuters já tinha antecipado este fenómeno antes do jogo, chamando Cabo Verde de uma das “queridinhas” (“darlings”) do Mundial. Depois da qualificação, essa perceção consolidou-se. A equipa de Bubista passou a ser vista como a seleção que todos os adeptos neutros gostam de acompanhar: organizada, humilde e capaz de competir sem complexos diante de qualquer adversário. (Reuters)

Não é apenas uma equipa africana. É uma história que conquistou o futebol mundial.

Vozinha continua a ser símbolo, mas a estrela chama-se coletivo

A imprensa continua naturalmente fascinada por Vozinha.

Aos 40 anos, o guarda-redes transformou-se num fenómeno global, multiplicando milhões de seguidores nas redes sociais e tornando-se um dos rostos do Mundial. (MarketWatch)

Mas, curiosamente, as análises mais profundas já não colocam o foco apenas no guarda-redes.

Os jornais internacionais começam a identificar aquilo que o Notícias do Norte vem escrevendo desde o empate frente à Espanha.

O segredo de Cabo Verde não é um jogador.

É o coletivo. É a organização. É a disciplina tática. É uma equipa onde onze jogadores pensam em conjunto.

Contra a Espanha, resistiu. Contra o Uruguai, respondeu. Contra a Arábia Saudita, soube gerir a pressão de jogar pelo resultado. Essa maturidade impressionou os observadores internacionais. (The Guardian)

A surpresa acabou

Talvez o maior elogio vindo da imprensa internacional seja precisamente este.

Já ninguém escreve:

“Cabo Verde voltou a surpreender.”

Agora escreve-se:

“Cabo Verde qualificou-se com mérito.”

A diferença parece pequena. Mas muda tudo. Surpresas acontecem uma vez.

Mérito constrói-se jogo após jogo. Depois de empatar com a Espanha.

Depois de empatar com o Uruguai. Depois de voltar a pontuar frente à Arábia Saudita.

Já ninguém pode falar em acaso.

O próximo capítulo chama-se Argentina

O destino colocou agora mais uma campeã do mundo no caminho dos Tubarões Azuis.

A Argentina aparece como favorita.

Naturalmente. Mas também a Espanha era favorita.

Também o Uruguai era favorito. E, no entanto, nenhum deles conseguiu vencer Bubista. E Cabo Verde tem direito a sonhar com o ditado “ não há duas sem três”

A imprensa internacional apresenta o duelo com a Argentina como um dos mais fascinantes dos dezasseis-avos-de-final de um lado, a maior potência do futebol mundial; do outro, o pequeno arquipélago africano que se recusou a aceitar o papel de figurante. (The Guardian) E que não vai jogar só para no fim trocar a camisola com o Messi

Editorial do Notícias do Norte

Há poucos dias escrevíamos que o maior ganho deste Mundial podia nem estar nos resultados.

Estava na identidade.

No reconhecimento internacional.

No orgulho de milhões de cabo-verdianos espalhados pelo mundo.

Hoje acrescentamos outra ideia.

Cabo Verde já não joga apenas por Cabo Verde.

Joga por todos os pequenos países que acreditam que organização, inteligência e coragem podem equilibrar as diferenças de dimensão, riqueza e tradição.

O mundo adotou os Tubarões Azuis.

Mas, acima de tudo, aprendeu finalmente uma lição simples.

Cabo Verde não veio ao Mundial para participar.

Veio para competir.

E essa talvez seja a maior vitória de todas.

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