
Crónica – Eduino Santos
Há vitórias que não cabem numa taça. Nem numa medalha. Nem sequer numa classificação histórica para um Campeonato do Mundo. Há vitórias que acontecem dentro da cabeça das pessoas. E talvez essa seja a maior conquista que Cabo Verde está a viver neste Mundial.
Nos últimos dias vi um vídeo que me emocionou.
Uma cabo-verdiana, em Nova Iorque, filmava uma estação de metro decorada com as cores da nossa bandeira. Entre lágrimas e sorrisos, dizia uma frase que resume cinquenta anos de emigração cabo-verdiana:
“Nunca mais vou perder tempo a explicar o que é Cabo Verde e onde fica“. Quem nunca viveu fora talvez não perceba a profundidade dessa frase. Mas qualquer emigrante cabo-verdiano sabe exactamente do que ela está a falar.
Porque durante décadas, ser cabo-verdiano era começar uma conversa com uma aula de Geografia.
— Onde fica?
— É em África?
— Falam português porquê?
— Isso é uma ilha?
— Mas és brasileiro?
— Tens passaporte português?
E depois vinham mais vinte minutos de explicações.
Hoje, graças ao futebol, milhões de brasileiros já sabem a resposta antes mesmo de fazerem a pergunta.
Curiosamente, antes do futebol houve Cesária Évora.
Foi ela quem colocou Cabo Verde no mapa sentimental do mundo.
Quando alguém dizia “Cabo Verde”, havia sempre quem respondesse:
— Ah… Cesária Évora.
Hoje a resposta mudou.
— Ah… Vozinha.
Ou Bubista.
Ou os Tubarões Azuis.
E talvez seja essa a dimensão deste Mundial que ainda não conseguimos medir.
Porque um guarda-redes nascido em São Vicente, com cerca de 16 milhões de seguidores nas redes sociais, vale mais para o reconhecimento internacional de um país do que dezenas de campanhas institucionais.
Mas deixem-me voltar quarenta anos atrás.
Rio de Janeiro. 1986.
Fui bolseiro da UNICEF para frequentar um curso de Sistemas de Televisão na Rede Globo. Jardim Botânico.
Estava convencido de que, num ambiente académico, entre licenciados, engenheiros, jornalistas e técnicos de televisão, nunca teria de explicar onde ficava Cabo Verde.
Enganei-me.
Todos os dias era a mesma conversa.
— De onde és?
— Sou de Cabo Verde.
Silêncio.
Depois começava o interrogatório.
— Onde fica?
— Por que falam português?
— Mas pareces brasileiro.
— Tens sotaque de Lisboa…
Na verdade, eu tinha crescido em Lisboa e ainda falava com aquele português alfacinha que imediatamente confundia toda a gente.
Houve um colega que, depois da minha explicação, apareceu triunfante com um mapa-mundo.
Abriu-o em cima da mesa e disse:
— Estás a ver? Cabo Verde nem existe!
Olhei para o mapa.
Olhei para ele.
E respondi:
— Cabo Verde existe. Esse mapa é que foi feito por um ignorante em Geografia e História… como tu.
A partir desse dia, comecei a evitar responder.
Não porque tivesse vergonha de ser cabo-verdiano.
Pelo contrário. Porque me cansava explicar.
Até que um dia aconteceu um episódio que nunca mais esqueci.
Rua Miguel Lemos. Copacabana.
Sentei-me para engraxar os sapatos.
Disse, no meu melhor português corrente :
— Ó miúdo, podes engraxar os sapatos, por favor?
O rapaz passou o pano no primeiro sapato.
Olhou para mim durante alguns segundos.
E fez a pergunta que eu já tinha ouvido centenas de vezes.
— Você é português?
Naquele instante fiz uma conta rápida.
Se dissesse que era cabo-verdiano, perderia mais quinze minutos a explicar a história do arquipélago, a colonização, a língua, a independência…
Resolvi facilitar a vida.
— Sim… sou português.
O rapaz parou imediatamente.
Olhou para mim de alto a baixo.
Abriu os olhos.
E perguntou, completamente espantado:
— Uééé!… Tem português preto, tem?
Confesso que naquele momento percebi que já não havia resposta capaz de salvar aquela conversa.
Limitei-me a olhar para ele e disse:
— Ó pá… engraxá lá os sapatos que estou com pressa.
Hoje rio-me dessa história. Naquele tempo não teve graça nenhuma.
Porque ela mostrava uma realidade que acompanhou gerações de cabo-verdianos espalhados pelo mundo.
Nós éramos um país que existia. Mas que poucos sabiam localizar.
Hoje isso está a mudar. Não porque a Geografia mudou. Mudou a História.
Os brasileiros ajudaram, talvez sem se aperceberem, a resolver um velho problema de identidade da diáspora cabo-verdiana.
Milhões descobriram onde fica Cabo Verde.
Descobriram que é um país. Que fala português. Um historia comum
Que joga um futebol inteligente. Que tem um guarda-redes chamado Vozinha.
Que empatou com a Espanha. Que fez frente ao Uruguai.
Que deixou de ser uma nota de rodapé para ocupar as manchetes.
É curioso. Durante décadas fomos nós que tentámos explicar Cabo Verde ao mundo.
Hoje é o mundo que explica Cabo Verde aos outros.
Talvez seja essa a maior vitória deste Mundial. Porque um jogo dura noventa minutos.
Mas o reconhecimento de uma identidade pode durar gerações.
E isso… não há taça que pague.