Editorial/ Que Francisco governe!

19/06/2026 21:52 - Modificado em 19/06/2026 21:52

Nenhum Governo é bom ou mau antes de começar a governar.

Mal foram conhecidos os nomes do novo Governo começou aquilo que Cabo Verde faz melhor depois  eleições. Avaliar. Julgar. Condenar. Absolver. E sobretudo o surgimento dos adivinhadores. E acreditem:  tudo isto antes da primeira reunião do Conselho de Ministros.

Nas redes sociais, como era previsível, surgiram duas tribos do costume :os entusiastas e os desiludidos.

Uns descobriram imediatamente o melhor Governo da história da República. Outros encontraram em poucas horas a prova irrefutável de que o país caminha para o desastre.

Há ministros que ainda nem encontraram a chave do gabinete e já foram promovidos a génios ou rebaixados a incompetentes. A velocidade da justiça popular continua impressionante. Talvez mais impressionante do que a própria formação do Governo.

O problema é que a experiência democrática cabo-verdiana ensina exatamente o contrário. Os governos não são bons porque têm nomes sonantes. Nem maus porque incluem figuras polémicas.

A política não é uma competição de currículos. Nem um concurso de simpatia.

É uma atividade muito mais simples e muito mais exigente : governar.

E isso só pode ser avaliado depois de governar.

Há muito tempo que o Notícias do Norte recusa alinhar numa certa moda política que se instalou no país. A ideia de que os governos governam para prejudicar Cabo Verde.

Não acreditámos nisso quando o PAICV governava. Não acreditámos nisso quando o MpD governou. E não vamos começar agora.

Podemos criticar decisões. Podemos criticar políticas públicas. Podemos apontar erros.

Podemos discordar de prioridades. Mas uma coisa é errar. Outra coisa é governar deliberadamente contra o interesse nacional.

Ao longo dos anos ouvimos de tudo. Ouvimos que havia governos que queriam destruir São Vicente. Ouvimos que havia governos que queriam destruir Santiago . Ouvimos que havia governos que governavam contra a diáspora. Contra os empresários. Contra os pescadores. Contra os agricultores. Contra os jovens. Contra os velhos. Contra toda a gente.

A única conclusão possível seria que os sucessivos governos cabo-verdianos passaram décadas numa espécie de conspiração permanente contra o próprio país.

Nunca acreditámos nessas reles teorias da conspiração cozinhadas quando se  está á procura do poder.

Nem quando assistimos a elencos governativos que, por vezes, mais pareciam equipas de balizinha improvisadas à última hora. E outros que nem pareciam com talento para participar de uma equipa de “ corrida pau” Nem quando vimos governos onde algumas escolhas levantavam mais dúvidas do que certezas.

Porque a política democrática tem uma regra simples:  Os governos têm legitimidade para governar. E os cidadãos têm legitimidade para avaliar.

Mas essa avaliação acontece no fim. Não no primeiro dia.

Francisco Carvalho ganhou as eleições. Foi essa a vontade expressa pelos cabo-verdianos. Uns votaram nele por convicção. Outros por esperança. Outros por protesto.

Pouco importa. O resultado está nas urnas. E em democracia as urnas são soberanas.

Agora começa a parte difícil. Transformar promessas em políticas. Transformar discursos em decisões. Transformar expectativas em resultados. Transformar slogans em melhoria efetiva da qualidade de vida das pessoas.

É aí que os governos ganham ou perdem.

Não nas conferências de imprensa. Não nas redes sociais. Não nos comentários do Facebook. Muito menos na composição da fotografia oficial.

A história política cabo-verdiana está cheia de ministros brilhantes que fracassaram.

E de ministros discretos que surpreenderam. Está cheia de governos que começaram sob aplausos e terminaram sob críticas. E de governos que começaram sob desconfiança e acabaram por conquistar reconhecimento.

Por isso, talvez o mais sensato seja fazer aquilo que a democracia exige.

Deixar o Governo governar : Que Francisco governe!

 Podemos fiscalizar, questionar, criticar quando for necessário.

E elogiar quando for merecido. Mas sobretudo esperar pelos resultados.

Porque no final do dia, os governos não são avaliados pelos nomes que aparecem no Boletim Oficial.  Na foto oficial do Governo . São avaliados pela melhoria da vida das pessoas.

E essa avaliação continua a fazer-se da mesma forma que sempre se fez em democracia : nas urnas.

 Em democracia os governos não são avaliados pela fotografia da tomada de posse, mas pelo retrato que deixam quando saem.

Eduino Santos

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