Se contra a Espanha a funda de Bubista foi a paciência, contra o Uruguai poderá ter de ser a inteligência emocional

Durante três dias, Cabo Verde viveu nas nuvens. E com razão. O mundo descobriu os Tubarões Azuis. Os jornais internacionais falaram de Cabo Verde. Os comentadores elogiaram a organização táctica da equipa. As televisões mostraram Vozinha como um dos heróis da jornada. As redes sociais transformaram o empate com a Espanha numa das histórias mais bonitas deste Mundial.
Foi um banho mediático raro para um pequeno país atlântico habituado a aparecer nas notícias por causa da seca, da emigração ou do turismo.
Mas o Mundial tem uma característica cruel. Não deixa ninguém viver demasiado tempo da glória de ontem.
Mal terminou a celebração da Espanha, aparece no horizonte um adversário que obriga Cabo Verde a voltar a colocar os pés na relva. E esse adversário chama-se Uruguai.
Um nome que continua a provocar arrepios em boa parte do Brasil desde 1950 e que, para gerações de brasileiros, permanece associado ao lendário Maracanazo.
Mas o Uruguai não é apenas uma memória histórica. É uma equipa difícil.
Desagradável. Incómoda. Daquelas seleções que parecem sentir prazer em transformar um jogo de futebol numa batalha de sobrevivência.
Os brasileiros têm uma palavra muito própria para isso. Chamam-lhe “catimba”.
Provocação. Pressão psicológica. Choque físico. Interrupções. Reclamações.
A arte de levar o adversário para um terreno onde deixa de pensar e começa apenas a reagir. E é precisamente aí que mora o primeiro perigo para Cabo Verde.
A Espanha queria a bola. O Uruguai quer o combate.
O empate com a Espanha levou muitos adeptos a acreditar que o mais difícil já passou.
Talvez não. Porque a Espanha e o Uruguai representam problemas completamente diferentes.
A Espanha gosta de ter a bola. Troca passes. Circula. Empurra lentamente o adversário para trás. Procura uma pequena brecha. Uma fissura. Um erro.
O Uruguai não tem essa paciência. Prefere atacar a muralha em velocidade.
Recupera a bola e acelera. Perde a bola e pressiona imediatamente.
Não quer deixar o adversário respirar. Quer obrigá-lo a errar. Quer transformar o jogo numa sucessão de duelos individuais.
Enquanto a Espanha procura desmontar o adversário peça a peça, o Uruguai tenta derrubá-lo pelo impacto.
E isso obriga Cabo Verde a preparar um jogo completamente diferente.
O perigo escondido na posse de bola
Pode haver uma ironia interessante neste confronto.
Contra a Espanha, Cabo Verde passou grande parte do jogo sem bola.
E isso fazia parte do plano. Contra o Uruguai, poderá acontecer exatamente o contrário.
Os sul-americanos não têm qualquer problema em ceder posse durante largos períodos.
E é aí que surge um dos maiores riscos.
Porque o Uruguai vive das transições rápidas. Vive do erro do adversário.
Vive daqueles segundos em que uma equipa perde a bola e ainda está a reorganizar-se.
Foi assim durante décadas. Continua a ser assim hoje.
Por isso, o maior desafio para Cabo Verde talvez não seja defender. Talvez seja saber atacar sem se desequilibrar.
A maior lição deixada pela Espanha
O empate frente aos espanhóis ensinou uma coisa que vai muito além da tácita.
A verdadeira vitória de Cabo Verde foi mental.
Durante noventa minutos, a equipa manteve uma disciplina quase espartana.
Não entrou em pânico. Não correu atrás da bola de forma desesperada.
Não perdeu a cabeça. E conseguiu algo extraordinário: terminar o jogo com apenas uma falta assinalada.
Num Mundial. Contra a Espanha. Essa estatística vale quase tanto como o resultado.
Porque demonstra uma equipa emocionalmente equilibrada.
E contra o Uruguai isso pode valer ouro. Os uruguaios são especialistas em transformar jogos em batalhas psicológicas.
A pior coisa que poderia acontecer a Cabo Verde seria aceitar esse convite.
A nova funda de Bubista
Quando escrevemos no Notícias do Norte sobre David e Golias, defendemos uma ideia simples.
David não venceu porque era mais corajoso. Venceu porque era mais inteligente.
Sabia que, se enfrentasse Golias de frente, morreria.Por isso escolheu outro terreno.
Outra arma. Outra estratégia.
Contra a Espanha, a funda de Bubista chamou-se paciência.
Contra o Uruguai poderá chamar-se outra coisa.
Disciplina sem bola. Rapidez na recuperação.
Capacidade para explorar os espaços que os sul-americanos deixam quando avançam em bloco.
E sobretudo inteligência emocional. Porque o Uruguai quer um jogo de força.
Quer um jogo de choque. Quer um jogo de nervos.
Se Cabo Verde aceitar esse desafio, estará a jogar o futebol que o Uruguai deseja.
Mas se conseguir obrigar os uruguaios a jogar o futebol que Bubista desenhar, então a história muda.
E muito.
Hora de voltar ao trabalho
Os elogios são merecidos.A admiração internacional também.
O orgulho nacional igualmente.
Mas os Tubarões Azuis sabem melhor do que ninguém que os pontos conquistados contra a Espanha não valem metade de um golo contra o Uruguai.
Por isso, talvez tenha chegado o momento de descer das nuvens.
Guardar os recortes dos jornais.
Desligar os holofotes. Voltar ao trabalho. Porque a Espanha já pertence à história deste Mundial.
O Uruguai pertence ao presente.
E os Mundiais não são ganhos pelas equipas que melhor celebram os empates.
São ganhos pelas equipas que conseguem transformar uma grande noite numa grande campanha.
A Espanha foi a surpresa. O Uruguai será o teste.
E é agora que vamos descobrir se a funda de Bubista tem mais pedras guardadas.
Eduino Santos