Quando o Presidente da Republica sonha com outro treinador em pleno Mundial, a pergunta não é sobre Abel. É sobre o lugar em que deixa Bubista.

Para felicidade de Bubista — e para tranquilidade da democracia desportiva cabo-verdiana — não cabe ao Presidente da República escolher o selecionador nacional.
Essa competência pertence à Federação Cabo-verdiana de Futebol.
E ainda bem.
Porque se começarmos a misturar os poderes constitucionais com as preferências futebolísticas, qualquer dia teremos o Chefe de Estado a escolher o ponta-de-lança, o guarda-redes suplente e o marcador dos pontapés de canto.
Por: Eduino Santos
Há elogios que parecem elogios. E há elogios que chegam com o pé de cabra escondido.
O Presidente da República, José Maria Neves, disse numa entrevista à ESPN que gostaria de ver um dia a seleção nacional orientada por Abel Ferreira.
À primeira vista, nada de extraordinário. A não ser a capacidade financeira para o contratar. Abel Ferreira é um dos treinadores portugueses mais bem-sucedidos da atualidade.
Conquistou títulos no Brasil. Ganhou Libertadores. Construiu reputação internacional.
Até aqui tudo normal. O problema é o contexto. E sabemos que José Maria Neves falha muito no contexto. E não vamos falar , aqui , do contexto que atribui o salário a primeira dama e depois mandou retirar o salário
Mas no futebol, como na política, o contexto é quase tudo. Porque a declaração não surgiu depois de uma campanha falhada. Não surgiu depois de uma eliminação humilhante. Não surgiu depois de um desastre desportivo.Surgiu em pleno Campeonato do Mundo. Com Cabo Verde a disputar pela primeira vez a maior competição do futebol mundial.
E com Bubista sentado no banco. O mesmo Bubista que levou Cabo Verde ao Mundial.
O mesmo Bubista que desenhou o plano táctico que neutralizou uma das selecções favoritas ao título. O mesmo Bubista que transformou uma equipa de meio milhão de habitantes num assunto mundial.
Por isso a questão não é Abel Ferreira. A questão é simples.
Como terá soado a frase nos ouvidos do atual selecionador?
Porque existe uma diferença entre dizer:
“Temos um excelente treinador.”
E dizer:
“Gostaria de ter outro.”
Mesmo quando esse outro se chama Abel Ferreira.
Nas redes sociais, a reação dividiu-se.
Muitos adeptos interpretaram a declaração como uma simples manifestação de admiração pelo técnico português. Outros consideraram a intervenção infeliz pelo momento escolhido. Não porque Abel Ferreira não seja um grande treinador.
Mas porque a declaração surge exatamente quando Cabo Verde vive o ponto mais alto da sua história futebolística.
E esse ponto alto tem uma assinatura. Chama-se Bubista.
Imagine-se o cenário inverso.
A selecção portuguesa está num Mundial.
Roberto Martínez prepara um jogo decisivo.
E o Presidente de Portugal aparece a dizer que adoraria ver Guardiola ou Klopp no comando da equipa.
Seria imediatamente notícia.
Não porque Guardiola ou Klopp não fossem excelentes treinadores.
Mas porque existe um homem sentado no banco.
E esse homem chama-se Roberto Martínez.
O problema nunca é o nome mencionado.
É o nome omitido.
Neste caso, Bubista.
Curiosamente, a declaração surge e depois temos o empate histórico com a Espanha.
Um resultado que levou jornais internacionais a falar da organização táctica cabo-verdiana.
Da disciplina colectiva. Da inteligência estratégica.Da capacidade de sofrer sem perder identidade. Tudo isso tem autor. Tudo isso tem assinatura.
Tudo isso chama-se Bubista.
Talvez por isso a questão que fica não seja se Abel Ferreira seria ou não um bom seleccionador nacional.
Provavelmente seria. A questão é outra.
Num momento em que o país inteiro celebra uma das maiores páginas da sua história desportiva, era mesmo necessário lançar para o debate público o nome de um hipotético sucessor?
Porque no final das contas, a frase que muitos ouviram não foi:
“Abel Ferreira seria bem-vindo.”
A frase que muitos ouviram foi:
“Bubista não é suficiente.”
E essa talvez seja uma leitura injusta.
Mas também é o risco de falar de substituições quando o titular ainda está a jogar.
Sobretudo quando o titular acaba de levar Cabo Verde onde nenhum treinador cabo-verdiano tinha conseguido chegar antes.
Há ainda um detalhe que talvez mereça reflexão.
Para felicidade de Bubista — e para tranquilidade da democracia desportiva cabo-verdiana — não cabe ao Presidente da República escolher o selecionador nacional.
Essa competência pertence à Federação Cabo-verdiana de Futebol.
E ainda bem.
Porque se começarmos a misturar os poderes constitucionais com as preferências futebolísticas, qualquer dia teremos o Chefe de Estado a escolher o ponta-de-lança, o guarda-redes suplente e o marcador dos pontapés de canto.
O papel de um Presidente da República não é escolher ou sugerir treinadores.
É representar todos os cabo-verdianos. Incluindo o treinador que está sentado no banco.
Sobretudo quando esse treinador acaba de realizar aquilo que nenhum dos seus antecessores conseguiu: levar Cabo Verde a um Campeonato do Mundo e obrigar a Espanha a sair de campo a explicar um empate.
Abel Ferreira não precisa da “graxa” presidencial para ser um grande treinador.
Os títulos falam por ele. As Libertadores falam por ele. O respeito que conquistou no futebol mundial fala por ele. E talvez seja precisamente por isso que a declaração soa deslocada.
Porque parece menos uma análise futebolística e mais um daqueles impulsos muito cabo-verdianos de lustrar os sapatos que vêm de fora enquanto se olha com alguma desconfiança para quem está dentro de casa.
Uma velha doença nacional. A ideia de que a excelência mora sempre no estrangeiro.
E que o mérito dos nossos só é plenamente reconhecido quando recebe um selo de importação.
Mas o futebol tem destas ironias.
Enquanto o Presidente sonhava em voz alta com Abel Ferreira, o mundo do futebol falava de Bubista.
Enquanto se discutia um treinador hipotético, os jornais internacionais elogiavam um treinador real. Enquanto se imaginava o futuro, alguém estava a escrever a História.
E talvez essa seja a melhor resposta.
Porque há momentos para imaginar o futuro. Mas também há momentos para reconhecer quem está a construir o presente. E neste momento, goste-se ou não, o nome que está a escrever a mais bela página do futebol cabo-verdiano chama-se Bubista.