Quando os filhos de Cabo Verde jogavam por todos… menos por Cabo Verde.

Nos anos 80, 90 e início dos anos 2000, um jovem cabo-verdiano ou descendente de cabo-verdianos que mostrasse talento futebolístico tinha um destino quase previsível: acabava numa seleção europeia.
Não porque rejeitasse Cabo Verde. Mas porque Cabo Verde praticamente não existia no mapa do futebol mundial. A Federação tinha poucos recursos.
As qualificações eram raras. As infraestruturas limitadas ou inexistentes
O sonho de um Mundial parecia ficção científica. E havia mercearias que tinham o seguinte cartaz” Fiado , só quando Cabo verde for a Copa do Mundo”
Resultado? A diáspora produzia talento para os outros.
Nascido na Amadora, filho de pais cabo-verdianos oriundos de Santiago. Foi campeão europeu por Portugal. Jogou mais de 100 vezes pela seleção portuguesa.
É provavelmente o maior exemplo de um talento que, em circunstâncias diferentes, poderia ter vestido a camisola azul dos Tubarões. Mas quando Nani surgiu, Cabo Verde simplesmente não tinha capacidade competitiva para disputar a sua escolha.
Outro produto da comunidade cabo-verdiana em Portugal. Representou Portugal em Europeus e Mundiais. Durante anos foi uma das referências do futebol português.
Natural de Angola, mas com raízes cabo-verdianas. Também escolheu Portugal.
Rolando Jorge Pires da Fonseca. Nascido em São Vicente. Talvez o exemplo mais simbólico. Nasceu efetivamente em Cabo Verde. Chegou a Portugal jovem. Acabou internacional português. Durante anos foi titular do FC Porto e da seleção portuguesa.
Nascido em Praia. Mudou-se para a Suíça. Representou a seleção suíça em Mundiais. Enquanto Cabo Verde tentava qualificar-se para uma CAN, Gelson já disputava Campeonatos do Mundo.
Johan Djourou. Mãe cabo-verdiana. Representou a Suíça. Jogou Arsenal e Mundial.
Passou pelas seleções jovens portuguesas. Acabou por não se afirmar na seleção principal. Hoje seria um perfil que Cabo Verde provavelmente conseguiria captar.
Filho de mãe cabo-verdiana. Campeão europeu por Portugal. Um dos casos mais mediáticos da diáspora cabo-verdiana.
Raízes cabo-verdianas. Internacional português.
A comunidade cabo-verdiana de Roterdão produziu dezenas de profissionais. Muitos passaram pelas seleções jovens holandesas. Alguns chegaram às equipas principais. Outros nunca chegaram e hoje representam Cabo Verde.
É precisamente aqui que a estratégia cabo-verdiana começou a mudar.
Marrocos percebeu primeiro. Foi buscar Hakimi a Espanha. Foi buscar Ziyech à Holanda. Foi buscar dezenas de jogadores às academias europeias.
Resultado?
Semifinalista do Mundial de 2022.
Cabo Verde está a seguir exatamente a mesma estrada. Mas ainda numa escala menor. A próxima etapa talvez seja fazer aquilo que Marrocos faz hoje:
Porque a grande lição dos últimos quarenta anos é simples: Durante décadas a diáspora cabo-verdiana ofereceu jogadores ao mundo.
Hoje Cabo Verde começou finalmente a recuperar uma parte desse património.
E talvez o próximo craque dos Tubarões Azuis esteja neste momento a jogar num campo de Roterdão, Paris, Boston ou Lisboa sem imaginar que um dia poderá levar Cabo Verde ainda mais longe do que esta geração histórica.
Eduino Santos