Dos Tubarões Perdidos aos Tubarões Recuperados

14/06/2026 23:04 - Modificado em 14/06/2026 23:04

Quando os filhos de Cabo Verde jogavam por todos… menos por Cabo Verde.

Foto: FCF

Nos anos 80, 90 e início dos anos 2000, um jovem cabo-verdiano ou descendente de cabo-verdianos que mostrasse talento futebolístico tinha um destino quase previsível: acabava numa seleção europeia.

Não porque rejeitasse Cabo Verde. Mas porque Cabo Verde praticamente não existia no mapa do futebol mundial. A Federação tinha poucos recursos.

As qualificações eram raras. As infraestruturas limitadas ou inexistentes

O sonho de um Mundial parecia ficção científica. E havia mercearias que tinham o seguinte cartaz” Fiado , só quando Cabo verde for a Copa do Mundo”

Resultado? A diáspora produzia talento para os outros.

O caso mais famoso: Nani

Nascido na Amadora, filho de pais cabo-verdianos oriundos de Santiago. Foi campeão europeu por Portugal. Jogou mais de 100 vezes pela seleção portuguesa.

É provavelmente o maior exemplo de um talento que, em circunstâncias diferentes, poderia ter vestido a camisola azul dos Tubarões. Mas quando Nani surgiu, Cabo Verde simplesmente não tinha capacidade competitiva para disputar a sua escolha.

Manuel Fernandes

Outro produto da comunidade cabo-verdiana em Portugal. Representou Portugal em Europeus e Mundiais. Durante anos foi uma das referências do futebol português.

Eliseu

Natural de Angola, mas com raízes cabo-verdianas. Também escolheu Portugal.

Rolando

Rolando Jorge Pires da Fonseca. Nascido em São Vicente. Talvez o exemplo mais simbólico. Nasceu efetivamente em Cabo Verde. Chegou a Portugal jovem. Acabou internacional português. Durante anos foi titular do FC Porto e da seleção portuguesa.

Gelson Fernandes

Nascido em Praia. Mudou-se para a Suíça. Representou a seleção suíça em Mundiais. Enquanto Cabo Verde tentava qualificar-se para uma CAN, Gelson já disputava Campeonatos do Mundo.

Johan Djourou

Johan Djourou. Mãe cabo-verdiana. Representou a Suíça. Jogou Arsenal e Mundial.

Ivan Cavaleiro

Passou pelas seleções jovens portuguesas. Acabou por não se afirmar na seleção principal. Hoje seria um perfil que Cabo Verde provavelmente conseguiria captar.

Renato Sanches

Filho de mãe cabo-verdiana. Campeão europeu por Portugal. Um dos casos mais mediáticos da diáspora cabo-verdiana.

Nelson Semedo

Raízes cabo-verdianas. Internacional português.

Os casos da Holanda

A comunidade cabo-verdiana de Roterdão produziu dezenas de profissionais. Muitos passaram pelas seleções jovens holandesas. Alguns chegaram às equipas principais. Outros nunca chegaram e hoje representam Cabo Verde.

É precisamente aqui que a estratégia cabo-verdiana começou a mudar.

O modelo Marrocos e a próxima etapa

Marrocos percebeu primeiro. Foi buscar Hakimi a Espanha. Foi buscar Ziyech à Holanda. Foi buscar dezenas de jogadores às academias europeias.

Resultado?

Semifinalista do Mundial de 2022.

Cabo Verde está a seguir exatamente a mesma estrada. Mas ainda numa escala menor. A próxima etapa talvez seja fazer aquilo que Marrocos faz hoje:

  • criar uma rede permanente de observação da diáspora;
  • acompanhar jogadores desde os 13 ou 14 anos;
  • envolver famílias;
  • organizar estágios regulares;
  • criar seleções jovens competitivas.

Porque a grande lição dos últimos quarenta anos é simples: Durante décadas a diáspora cabo-verdiana ofereceu jogadores ao mundo.

Hoje Cabo Verde começou finalmente a recuperar uma parte desse património.

E talvez o próximo craque dos Tubarões Azuis esteja neste momento a jogar num campo de Roterdão, Paris, Boston ou Lisboa sem imaginar que um dia poderá levar Cabo Verde ainda mais longe do que esta geração histórica.

Eduino Santos 

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