A imagem que circula nas redes sociais emociona. A História conta uma história ainda mais interessante.
Os pequenos não vencem os grandes porque têm mais coragem. Vencem porque percebem que não podem jogar o jogo dos grandes. David não derrotou Golias de frente. E se o tentar fazer, deixa de ser David. Passa a ser apenas uma vítima voluntária.Por isso, quando os Tubarões Azuis entrarem em campo, o objetivo não será enfrentar a Espanha de igual para igual.
Será algo muito mais inteligente: descobrir o calcanhar de Aquiles.
Porque a História ensina uma lição que continua válida três mil anos depois: a força assusta. A coragem inspira. Mas é quase sempre a estratégia que decide as batalhas.
Por: Eduino Santos

A imagem é poderosa. De um lado, Espanha. Gigante. Musculada. Quase invencível.
Do outro, Cabo Verde. Pequeno. Descalço. Armado apenas com uma funda.
A mensagem é evidente: David contra Golias.
O pequeno contra o grande. A coragem contra a força. E como todas as boas histórias, a imagem emociona. O problema é que a verdadeira história de David e Golias não foi exatamente essa.
Porque David não venceu Golias por ser mais corajoso: Venceu porque foi mais inteligente. Na verdade, David fez precisamente aquilo que os estrategas militares recomendam há milhares de anos: evitou lutar a batalha que o adversário queria. Golias era um guerreiro treinado para combate corpo a corpo.
Era enorme. Mais forte. Mais pesado. mais bem armado. Se David tivesse aceitado enfrentá-lo de frente, como sugere a imagem e os textos que pretendem ser motivacionais, teria durado menos tempo do que um contra-ataque espanhol.
David percebeu isso. Por isso recusou o combate tradicional. Usou uma funda. Manteve distância. Escolheu o terreno. Transformou a velocidade em vantagem. E atingiu o único ponto vulnerável do gigante. Não foi coragem. Foi estratégia.
Aliás, a História está cheia de supostos heróis que derrotaram gigantes exatamente da mesma forma. Páris nunca enfrentou Aquiles de frente. Sabia que perderia. Sabia que o herói grego era superior em combate. Por isso fez aquilo que os românticos não gostam de admitir.
Pensou. Calculou. Esperou. E disparou uma flecha para o único local vulnerável do adversário: o calcanhar. Aquiles caiu não porque Páris fosse mais forte. Mas porque Páris compreendeu algo fundamental: todos os gigantes têm fragilidades.
E talvez seja exatamente aqui que a imagem se torna interessante para o jogo entre Cabo Verde e Espanha. Porque se os Tubarões Azuis entrarem em campo convencidos de que basta coragem e fé para derrotar a Espanha, provavelmente regressarão a casa com uma lição dolorosa.
A Espanha tem mais talento. Mais profundidade. Mais experiência. Mais jogadores de elite. Isso não é opinião. É realidade. Mas o futebol raramente é decidido apenas pela soma dos talentos. É decidido pela capacidade de encontrar o ponto fraco do adversário.
A Espanha gosta de ter bola. Muito tempo de bola. Controlar ritmos. Empurrar adversários para trás. Mas também deixa espaços. Sobretudo quando perde a posse em zonas adiantadas. Foi exactamente aí que Cabo Verde destruiu a Sérvia: Pressão alta. Recuperação rápida. Transição vertical. Poucos toques. Muita velocidade.
Talvez a funda de Bubista esteja precisamente aí. Não em tentar ser Espanha. Mas em obrigar a Espanha a enfrentar um jogo que não gosta. No fundo, a imagem que circula nas redes sociais está certa na conclusão.
Mas, talvez, errada na explicação.
Os pequenos não vencem os grandes porque têm mais coragem. Vencem porque percebem que não podem jogar o jogo dos grandes. David não derrotou Golias de frente. E se o tentar fazer, deixa de ser David. Passa a ser apenas uma vítima voluntária.
Por isso, quando os Tubarões Azuis entrarem em campo, o objectivo não será enfrentar a Espanha de igual para igual. Será algo muito mais inteligente: descobrir o calcanhar de Aquiles.
Porque a História ensina uma lição que continua válida três mil anos depois: a força assusta. A coragem inspira. Mas é quase sempre a estratégia que decide as batalhas.