O verdadeiro milagre marroquino não foi formar jogadores. Foi convencê-los a regressar emocionalmente a uma pátria onde muitos nunca viveram.

A fotografia está a circular nas redes sociais como se fosse uma curiosidade estatística. “Marrocos é a primeira seleção a jogar com 11 jogadores nascidos fora do país.”
Interessante.
Mas não é aí que está a notícia. A notícia verdadeira é outra. Porque aqueles onze jogadores podiam estar noutro lado. Podiam estar a jogar por França, pela Holanda,pela Bélgica, pela Espanha. Por selecções que investiram na sua formação desde a infância.
Por países onde nasceram. Onde estudaram. Onde aprenderam a jogar futebol. E mesmo assim escolheram Marrocos. É aí que começa a história.
Porque a grande pergunta não é geográfica. É identitária. Por que razão um jovem nascido em Paris, Roterdão, Bruxelas ou Amesterdão escolhe vestir a camisola do país dos pais e dos avós?
A resposta não cabe numa frase. Mas começa em casa, na língua falada à mesa, nas histórias contadas pelos avós, nas viagens de férias, na comida, na música, na memória familiar.
E muitas vezes também numa sensação mais subtil. A sensação de nunca ser completamente aceite. Vários estudos e testemunhos de atletas descendentes de emigrantes mostram uma realidade recorrente: muitos cresceram sentindo-se franceses, holandeses ou belgas, mas descobriram cedo que uma parte da sociedade continuava a vê-los como “marroquinos”.
Marrocos percebeu isso antes dos outros. Percebeu que não bastava esperar. Era preciso agir.
Criou uma política agressiva de identificação de talentos da diáspora. Mandou observadores para França, para a Holanda, para a Bélgica, para Espanha. Criou relações com as famílias. Levou jovens às seleções de formação. Mostrou-lhes que não eram apenas descendentes de marroquinos: Eram marroquinos.
O resultado está hoje à vista. Um dos jogadores desta geração, que ontem chamou a atenção do mundo com a exibição que fez contra o Brasil, chegou a ser capitão das seleções jovens francesas.
Outros passaram pelos centros de alto rendimento da Holanda e da Bélgica. Quando chegou o momento da decisão, escolheram Rabat em vez de Paris. Escolheram Casablanca em vez de Amesterdão. Escolheram a memória em vez da conveniência.
E é aqui que Cabo Verde entra na conversa. Porque, na escala das suas possibilidades, a Federação Cabo-verdiana percebeu a mesma coisa há muitos anos.
Antes de muitos países africanos. Antes mesmo de o modelo marroquino se tornar uma referência mundial.
Sidny Cabral nasceu na Holanda. Roberto Lopes nasceu na Irlanda. Carlos nasceu nos Estados Unidos. Logan Costa nasceu em França. Steven Moreira nasceu em França. Deroy Duarte nasceu na Holanda. Dailon Livramento nasceu na Holanda.
E a lista continua.
Nenhum deles nasceu em Cabo Verde. Mas todos escolheram Cabo Verde. E isso não aconteceu por acaso. Aconteceu porque a Federação decidiu procurá-los. Identificá-los. Convidá-los. Integrá-los. Criar ligação emocional antes que outros o fizessem. No fundo, Cabo Verde fez com poucos recursos aquilo que Marrocos faz hoje com meios muito maiores.
A diferença é de escala. Não de conceito. E talvez seja precisamente aqui que surge a pergunta estratégica para o futuro. Será que Marrocos representa o próximo nível que Cabo Verde deve procurar atingir?
Tudo indica que sim.
Porque a diáspora cabo-verdiana é proporcionalmente uma das maiores do mundo. Há muito mais cabo-verdianos e descendentes de cabo-verdianos espalhados pelo planeta do que habitantes residentes nas ilhas.
Entre eles existem jogadores em academias da Premier League. Da Ligue 1. Da Eredivisie. Da MLS. Da Bundesliga. Da Liga Portuguesa
Alguns talvez nunca tenham visto um pôr-do-sol em São Vicente. Nem uma festa da bandeira no Fogo . Mas isso não significa que não possam sentir Cabo Verde.
Marrocos mostrou que a nacionalidade é um documento, mas a identidade é uma escolha. E no futebol moderno quem souber transformar identidade em projecto competitivo ganha uma vantagem enorme.
Talvez por isso a fotografia esteja a ser interpretada da forma errada. O mais impressionante não é ver onze jogadores nascidos fora de Marrocos. O mais impressionante é ver onze jogadores que podiam ter escolhido outros caminhos e decidiram regressar simbolicamente à terra dos pais.
No fundo, a verdadeira força de Marrocos não está na diáspora. Está na capacidade de convencer a diáspora de que continua a pertencer à mesma história.
E talvez esse seja também o próximo grande desafio de Cabo Verde. Transformar a sua enorme Nação Azul espalhada pelo mundo numa fonte permanente de talento, identidade e ambição.
Porque o futuro dos Tubarões Azuis pode muito bem estar neste momento a jogar futebol num bairro de Roterdão, num subúrbio de Boston ou numa academia de Paris. A questão é saber quem chegará primeiro até ele.
Eduino Santos