Dos Estados Unidos à Irlanda, da Holanda à França, a seleção nacional é o retrato de meio século de emigração transformada em identidade

Quando os Tubarões Azuis entrarem em campo no Mundial, estarão a representar Cabo Verde. Mas não apenas Cabo Verde.
Estarão também a representar Roterdão, Lisboa, Paris, Dublin, Londres, Providence, Brockton e dezenas de outras cidades espalhadas pelo mundo onde a emigração cabo-verdiana construiu raízes ao longo das últimas décadas.
A composição da selecção nacional confirma uma realidade muitas vezes esquecida: a equipa que hoje disputa o Mundial é talvez o retrato mais fiel da própria Nação Cabo-Verdiana.
Dos 26 convocados, uma parte significativa nasceu fora do arquipélago, em países que acolheram sucessivas vagas de emigração cabo-verdiana desde os anos 60.
A Holanda destaca-se como um dos principais berços da atual seleção.
Sidny Cabral, Deroy Duarte, Laros Duarte, Dailon Livramento, Ayonil Santos e Yannick Semedo nasceram em território holandês, muitos deles na região de Roterdão, uma das cidades que mais profundamente se identificam com a presença cabo-verdiana na Europa.
Portugal também marca presença com vários jogadores, entre os quais Wagner Pina, Gilson Benchimol e Hélio Varela.
Da França chegam nomes como Logan Costa, Steven Moreira e Jordan Mendes.
Dos Estados Unidos surge Carlos dos Santos.
Da Irlanda vem Roberto Lopes.
Da Inglaterra chega Telmo Arcanjo.
Ao mesmo tempo, a equipa mantém uma forte ligação às ilhas através de jogadores como Vozinha, Ryan Mendes, Kevin Pina, Jamiro Monteiro, Jovane Cabral, Nuno da Costa, Willy Semedo e outros atletas nascidos em Cabo Verde.
O resultado é uma selecção construída em três continentes.
Uma equipa que fala várias línguas, cresceu em diferentes culturas e percorreu caminhos distintos, mas que encontrou na camisola azul o ponto comum de encontro.
Por trás desta realidade existe também uma estratégia seguida pela Federação Cabo-verdiana de Futebol ao longo dos últimos anos.
Enquanto muitas federações africanas aguardavam que os descendentes de emigrantes escolhessem espontaneamente representar os países de origem dos pais, Cabo Verde optou por uma política activa de identificação e integração de talentos da diáspora.
O objectivo era simples: criar cedo uma ligação emocional entre os jovens jogadores e o país dos seus pais e avós.
A aposta produziu resultados.
Muitos dos atletas que hoje representam os Tubarões Azuis poderiam ter continuado à espera de uma oportunidade nas selecções dos países onde nasceram.
Escolheram Cabo Verde.
Não apenas por razões desportivas.
Mas também por identidade, pertença e ligação familiar.
A presença de tantos jogadores da diáspora ajuda igualmente a explicar as imagens que têm marcado este Mundial.
As celebrações em Boston, Roterdão, Lisboa, Paris e noutras cidades não são apenas manifestações de apoio a uma equipa de futebol.
São a expressão de uma comunidade global que se reconhece naquela selecção.
No fundo, o Mundial está a mostrar aquilo que os cabo-verdianos sabem há muito tempo.
O país pode ter pouco mais de meio milhão de habitantes nas ilhas.
Mas a Nação Cabo-Verdiana é muito maior do que o território que aparece nos mapas.
E a selecção nacional tornou-se, talvez pela primeira vez de forma tão visível, o espelho perfeito dessa realidade.
Eduino Santos