O avião chegou a Boston. A ironia aterrou primeiro

2/06/2026 22:59 - Modificado em 2/06/2026 22:59

Durante anos não conseguimos manter uma ligação regular aos Estados Unidos. Agora chegamos ao Mundial num avião vestido de Tubarões Azuis. Há imagens que valem mais do que mil discursos políticos.

E depois há imagens que parecem ter sido produzidas por um argumentista com um sentido de humor particularmente cruel.

A fotografia de um avião da Cabo Verde Airlines, decorado com as figuras dos jogadores da Selecção Nacional, a aterrar em Boston para o Mundial de Futebol pertence claramente à segunda categoria.

Porque a imagem transporta duas vitórias.

E uma ironia.

A primeira vitória é óbvia.

Cabo Verde está num Campeonato do Mundo.

Há não muitos anos, a ideia pareceria uma conversa optimista de fim de tarde entre adeptos e grogue.

Hoje é realidade.

Os Tubarões Azuis estão entre as melhores selecções do planeta.

A segunda vitória também é evidente.

Um avião cabo-verdiano aterra em Boston.

Boston.

A cidade que, para muitos cabo-verdianos, é quase uma extensão emocional do arquipélago.

A cidade onde vive uma das maiores comunidades cabo-verdianas do mundo.

A cidade para onde milhares de famílias cabo-verdianas olham como quem olha para uma segunda casa.

E é precisamente aqui que a ironia começa.

Porque durante anos, uma das críticas mais persistentes feitas ao Governo do MpD foi a incapacidade de garantir uma ligação aérea regular e estável entre Cabo Verde e os Estados Unidos.

Houve promessas.

Houve anúncios.

Houve estudos.

Houve expectativas.

E houve sobretudo muitos cabo-verdianos a continuarem a viajar através de escalas, desvios, conexões improváveis e verdadeiras peregrinações aeroportuárias para chegar a uma comunidade que deveria estar ligada naturalmente ao país.

Por isso, há qualquer coisa de quase poético nesta imagem.

O avião chega.

Mas chega por causa do Mundial.

Não por causa da política de transportes.

É como aquele filho que passa anos sem visitar a família e aparece finalmente em casa porque foi convidado para uma festa.

A visita conta.

Mas a família não deixa de reparar no detalhe.

Durante uma década, o país ouviu falar da importância estratégica da diáspora.

Da diáspora como motor económico.

Da diáspora como parceiro de desenvolvimento.

Da diáspora como prioridade nacional.

O problema é que as prioridades têm um hábito estranho:

normalmente acabam por exigir voos.

E foi precisamente aí que a realidade aterrou várias vezes antes do avião.

A verdade é que o Mundial acabou por produzir uma imagem que nem os melhores departamentos de comunicação conseguiriam desenhar.

Um avião cabo-verdiano.

Com jogadores cabo-verdianos.

A chegar à cidade mais cabo-verdiana dos Estados Unidos.

Para disputar o maior palco do futebol mundial.

É uma fotografia histórica.

Mas também é um lembrete.

Porque mostra simultaneamente aquilo que Cabo Verde consegue fazer quando acredita e aquilo que ainda não conseguiu resolver quando governa.

No fundo, a mesma imagem conta duas histórias.

Uma fala de ambição.

A outra fala de oportunidades perdidas.

E talvez seja essa a maior ironia de todas.

O país que conseguiu colocar onze jogadores num Mundial ainda continua à procura da fórmula para colocar, de forma regular, um avião entre Cabo Verde e a sua maior comunidade emigrada.

Mas por esta noite, Boston não vai pensar nisso.

Boston vai olhar para aquele avião e ver algo muito mais importante.

Pela primeira vez, os Tubarões Azuis chegaram ao Mundial.

E chegaram a bordo de um pedaço voador da própria Cabo Verde.

Mesmo que a ironia tenha aterrado alguns minutos antes.

Eduino Santos 

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