Cabo Verde vai ao Mundial… mas treina no meio do improviso

20/05/2026 23:24 - Modificado em 21/05/2026 00:01

Há imagens que falam sozinhas. E estas falam de abandono.

São Vicente sempre foi um dos grandes centros emocionais do futebol cabo-verdiano. A ilha construiu rivalidades históricas, produziu jogadores internacionais e transformou o futebol numa das suas principais expressões culturais.

Por : Eduino Santos

Durante anos disseram aos cabo-verdianos que São Vicente deixou de receber jogos internacionais porque o Estádio Adérito Sena não reunia as condições mínimas exigidas pela FIFA e pela CAF.

Era a explicação oficial. A versão institucional.
O argumento repetido sempre que a ilha via a selecção nacional passar ao largo.

O problema é que as imagens desta semana acabaram por criar uma pergunta politicamente desconfortável: afinal, que condições existem realmente para o futebol de alta competição em São Vicente? Por que para o futebol doméstico já sabemos.

Porque aquilo que se vê no campo do dito  Centro de Estagio  não parece exactamente o retrato de uma selecção que sonha com um Mundial.

E as imagens, infelizmente, não precisam de narrador.

O recinto surge marcado pelo desgaste evidente. O piso apresenta sinais visíveis de utilização excessiva, o espaço envolvente transmite improviso e a infraestrutura parece sobreviver mais pela resistência física de quem a utiliza do que por qualquer ideia séria de planeamento desportivo.

Há terra exposta. Há zonas degradadas.
Há materiais e estruturas improvisadas espalhadas pelo recinto.
E há sobretudo aquela sensação tipicamente cabo-verdiana de “vai funcionando”. Que em futebol amador talvez seja tolerável. Numa selecção nacional, já começa a entrar no território do embaraço.  E numa seleção apurada para o Mundial entramos campo do ridículo

As imagens mostram ainda jogadores e equipas a circularem num ambiente que está muito mais próximo de um recinto em recuperação improvisada do que de um centro de preparação de uma equipa internacional.

E aqui nasce a contradição.

Se o Adérito Sena não servia para jogos internacionais por falta de condições, fica agora difícil fingir que o cenário alternativo transmite exactamente padrões de excelência desportiva. O erro foi as equipas de São Vicente terem aceite disputar o regional de futebol jogando nu campo nessas condições. Mas colocar a selecçao nacional a treinar nessas condições significa na prática que São Vicente passou da impossibilidade de receber jogos oficiais para uma realidade onde até os treinos decorrem em condições que dificilmente impressionariam alguém fora de Cabo Verde.

E talvez o mais duro seja precisamente isso: a normalização.

Porque em Cabo Verde existe uma capacidade extraordinária de adaptação ao improviso. Tudo se ajusta. Tudo se remenda. Tudo se “resolve”. Até ao dia em que aparecem as fotografias e a realidade deixa de caber nos discursos oficiais.

A outra imagem do Adérito Sena ajuda a completar o quadro.

O estádio continua marcado por sinais claros de destruição e reconstrução incompleta. O relvado desapareceu praticamente por completo, as estruturas apresentam marcas visíveis das obras e o cenário geral transmite a sensação de uma infraestrutura suspensa entre o passado e um futuro que tarda em chegar.

A tempestade provocou danos.
Isso é evidente.

O que já não é tão evidente é a velocidade da recuperação.

Porque países que levam o desporto a sério normalmente tratam infraestruturas estratégicas como prioridades nacionais — não como obras eternamente estacionadas entre promessas, concursos e justificações administrativas.

E é aqui que o problema deixa de ser apenas futebolístico.

São Vicente sempre foi um dos grandes centros emocionais do futebol cabo-verdiano. A ilha construiu rivalidades históricas, produziu jogadores internacionais e transformou o futebol numa das suas principais expressões culturais.

Hoje, porém, as imagens mostram uma ilha que parece assistir lentamente à degradação das próprias infraestruturas desportivas enquanto o país tenta vender ao exterior a narrativa de uma selecção em crescimento.

E há qualquer coisa de quase cruel nesse contraste.

Dentro de campo, Cabo Verde cresce graças a emigração.
Fora dele, as infraestruturas parecem envelhecer mais depressa do que os discursos políticos conseguem disfarçar.

No fundo, as imagens deixam uma pergunta simples: que imagem desportiva Cabo Verde quer realmente apresentar ao mundo?

Porque talento, sozinho, ganha jogos.
Mas raramente consegue esconder para sempre campos degradados, obras eternas e infraestruturas que parecem presas entre a glória do passado e o improviso do presente. E assim sendo não resisto a terminar este texto citando Sérgio Frussoni : “ AH ! SONCENTE . Já bo cabá na nada!”

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