Todas as eleições têm vencedores e vencidos.
Mesmo em Cabo Verde, onde alguns partidos transformam derrotas em exercícios criativos de semântica política. Perde-se… mas “com dignidade”. Afunda-se… mas “menos do que se previa”. E há sempre aquele clássico nacional: o “podia ser pior”, espécie de analgésico eleitoral usado por dirigentes em estado de negação.
Mas a verdade, essa coisa desagradavelmente teimosa, é mais simples: quem perde, perde.

Por : Eduino Santos
E nas legislativas de 17 de Maio houve um dado impossível de maquilhar com conferências de imprensa optimistas ou comunicados carregados de autoajuda partidária: qualquer líder partidário que não se chama Francisco Carvalho e foi a votos saiu politicamente diminuído. E sem eufemismo : perdeu
Francisco Carvalho venceu.
E venceu muito antes das urnas começarem a ser descarregadas pela NOSI.
A vitória começou no momento em que decidiu disputar o controlo do PAICV contra praticamente toda a maquinaria informal do partido. Contra os barões internos. Contra os especialistas da derrota elegante. Contra aqueles sectores que há anos tratavam o PAICV como um condomínio político privado onde a alternância era permitida — desde que nada mudasse verdadeiramente.
Na altura, muitos venderam a candidatura de Francisco Carvalho como um acto de ingenuidade política. Outros trataram-no como um fenómeno municipal incapaz de sobreviver ao aparelho nacional do partido. E houve ainda os que apostaram que o presidente da Câmara da Praia acabaria esmagado pelo peso combinado das estruturas, das vaidades internas e do velho centralismo partidário que durante anos olhou para a capital com uma mistura de desconfiança e necessidade eleitoral.
O problema é que Francisco Carvalho percebeu uma coisa antes dos outros: o eleitorado estava cansado da política previsível.
Cansado dos mesmos rostos reciclados em nome da “experiência”.
Cansado das derrotas explicadas como vitórias morais.
E cansado de partidos que passaram anos a falar para si próprios enquanto o país começava lentamente a desligar emocionalmente da política.
A ascensão de Francisco Carvalho dentro do PAICV foi, acima de tudo, uma rebelião contra a resignação instalada.
E isso explica porque esta vitória tem um peso político maior do que os números frios das urnas.
Porque não foi apenas uma vitória eleitoral.
Foi uma vitória cultural dentro do próprio partido.
Francisco conseguiu fazer aquilo que durante anos parecia impossível no PAICV: impor liderança sem pedir autorização às correntes tradicionais do partido. E ao fazê-lo transformou-se no primeiro líder oposicionista em muitos anos capaz de mobilizar esperança dentro do seu próprio campo político em vez de apenas administrar descontentamentos.
Curiosamente, muitos dos que hoje aparecem nas fotografias da vitória são os mesmos que meses atrás aconselhavam prudência, moderação e, em certos casos, discretamente aguardavam o falhanço do novo líder para retomarem o controlo do partido. Em política cabo-verdiana, a memória é curta. Mas não devia ser.
Isso não significa que Francisco Carvalho tenha resolvido os problemas do PAICV. Nem significa que o partido esteja automaticamente preparado para governar sem contradições internas. As estruturas continuam lá. As rivalidades também. E o entusiasmo das noites eleitorais costuma evaporar rapidamente quando chega a hora de distribuir poder.
Mas há uma realidade impossível de ignorar: no dia 17 de Maio, Francisco Carvalho deixou de ser apenas o presidente da Câmara da Praia que conquistou o partido.
Passou a ser o homem que reconstruiu a ideia de que o PAICV podia voltar a acreditar na vitória.
E numa democracia desgastada pela abstenção, pelo cinismo político e pela fadiga colectiva, isso talvez seja a vitória mais importante de todas.