E no dia 17 de Maio, enquanto Francisco Carvalho consolidava a imagem de homem que conquistou o país político, Ulisses Correia e Silva descobria aquilo que quase todos os líderes de fim de ciclo descobrem tarde demais: o problema nunca esteve apenas na campanha. O problema começou no dia em que deixou de perceber o humor do país e deixou de ouvir as criticas de quem lhe dizia que pior que estar no mau caminho era continuar na …”bolha”

Por Eduino Santos
Todas as derrotas eleitorais começam muito antes da abertura das urnas.
O problema é que quase nenhum líder percebe isso enquanto ainda vai a tempo.
Ulisses Correia e Silva perdeu as eleições legislativas de 17 de Maio no exacto momento em que decidiu acreditar que o desgaste do poder podia continuar a ser administrado com comunicação política, inaugurações, sondagens amigas e aquela velha convicção de que Cabo Verde, no fundo, acabaria sempre por escolher “estabilidade”.
A história é quase cruel na sua simplicidade: Ulisses não perdeu porque fez uma má campanha : perdeu porque leu mal o país.
E talvez pior: leu mal o aviso que o próprio eleitorado já lhe tinha entregue nas autárquicas de 2024.
Na altura, houve quem tentasse vender os resultados municipais como acidentes locais. Problemas de candidatos. Questões camarárias. Rivalidades específicas. A tese era confortável: “as autárquicas não se transportam para as legislativas”. A vitoria no segundo circulo eleitoral , São Vicente que foi lida como uma vitória do MpD quando foi uma vitória do presidente Augusto Neves
Politicamente, era uma espécie de calmante. O problema dos calmantes políticos é que funcionam até ao momento em que chega a realidade.
E a realidade estava diante do MpD desde 2024: desgaste urbano, fadiga em Santiago Sul, erosão emocional do eleitorado e, sobretudo, uma mudança subtil mas perigosa — o país começava a olhar para o governo sem medo de imaginar uma alternativa.
É aí que começam os fins de ciclo.
Não no dia da votação.Não na contagem dos deputados.Mas no instante em que o eleitor perde o receio psicológico da mudança. Ulisses nunca pareceu compreender totalmente isso.
Preferiu acreditar nas sondagens de quem, curiosamente, já coleccionava erros suficientes para abrir uma pequena exposição estatística. Algumas davam vitória confortável. Outras alimentavam a narrativa de recuperação. E dentro do poder criou-se aquela atmosfera típica dos governos longos: a bolha.
Uma bolha onde ministros se convencem mutuamente de que o país real está exageradamente pessimista. Enquanto isso, cá fora, o país mudava.
E o maior erro estratégico de Ulisses talvez tenha sido outro: subestimou Francisco Carvalho. Subestimou a capacidade de mobilização emocional. Subestimou a fadiga acumulada contra o MpD. E sobretudo subestimou o facto de Francisco Carvalho não representar apenas uma candidatura partidária, mas uma ruptura psicológica dentro da oposição.
Durante demasiado tempo, o MpD pareceu acreditar que enfrentava o velho PAICV das derrotas resignadas, das guerras internas e da oposição burocrática. Quando percebeu que enfrentava um adversário capaz de gerar entusiasmo, já estava a jogar defensivamente.E governos que começam a jogar à defesa raramente estão realmente confortáveis.
É verdade que Ulisses pode usar a defesa moral da “derrota por pouco”.
E em parte terá razão.
Havia estudos que apontavam para um cenário quase catastrófico em Santiago Sul, uma repetição ampliada da humilhação autárquica de 2024. Isso não aconteceu. O MpD resistiu. Lutou. Evitou o colapso que muitos previam.
Mas há derrotas que ficam ainda mais evidentes precisamente porque o derrotado consegue perder com dignidade.
Ulisses vendeu cara a derrota.
Saiu com discurso de estadista. Sem dramatismo. Sem histeria. Sem transformar o país num espectáculo de ressentimento político — algo infelizmente raro em muitas democracias contemporâneas.
Mas continua a ser derrota.
E talvez a melhor metáfora seja mesmo a do futebol: aquela equipa que joga com coragem, corre até ao fim, evita a goleada anunciada, sai aplaudida… mas perde.
No final, a classificação não regista “perdemos mas saímos vivos”.
Regista apenas quem venceu.
E no dia 17 de Maio, enquanto Francisco Carvalho consolidava a imagem de homem que conquistou o país político, Ulisses Correia e Silva descobria aquilo que quase todos os líderes de fim de ciclo descobrem tarde demais: o problema nunca esteve apenas na campanha. O problema começou no dia em que deixou de perceber o humor do país e deixou de ouvir as criticas de quem lhe dizia que pior que estar no mau caminho era continuar na …”bolha”