
A confirmação da eleição dos dois deputados do círculo das Américas permitiu ao PAICV transformar uma vitória apertada numa vitória politicamente robusta.
Ao anunciar publicamente a conquista da maioria absoluta, Francisco Carvalho procurou dar imediatamente um significado político claro ao resultado: segundo afirmou, “os cabo-verdianos escolheram claramente um novo projecto de governação” e “escolheram um Cabo Verde para todos”.
Mais do que frases de celebração eleitoral, estas declarações ajudam a perceber a narrativa que o PAICV pretende construir a partir desta vitória.
Durante grande parte da noite eleitoral, o cenário dominante apontava para um Parlamento sem maioria absoluta e para uma legislatura marcada por negociações com a UCID.
Mas a diáspora — particularmente o círculo das Américas — acabou por alterar decisivamente o equilíbrio parlamentar.
Com mais de 66% dos votos nesse círculo, o PAICV garantiu os dois deputados e empurrou o resultado para a zona da maioria absoluta.
Politicamente, isso tem enorme peso simbólico:
Esta eleição também consolida a transformação política de Francisco Carvalho.
Até aqui, muitos analistas ainda o viam sobretudo como figura municipal e fenómeno político ligado à Praia. Com esta vitória, Carvalho passa a ocupar plenamente o espaço de líder nacional da esquerda cabo-verdiana.
E fê-lo através de uma campanha muito assente:
Quando afirma que os cabo-verdianos escolheram “um Cabo Verde para todos”, Carvalho tenta precisamente apresentar esta vitória como um voto contra exclusão, desigualdade e desgaste do poder.
Apesar da maioria absoluta, os números mostram que o país continua relativamente dividido.
O MpD mantém uma votação elevada e conserva forte implantação eleitoral. Isso significa que o PAICV recebe poder parlamentar confortável, mas governará um país politicamente muito competitivo.
Ou seja:
A maioria absoluta desta vez não nasce de uma onda esmagadora, mas de um equilíbrio fino decidido nos últimos círculos.
A vitória do PAICV encerra simbolicamente o ciclo iniciado em 2016 com a ascensão de Ulisses Correia e Silva.
O desgaste do poder, a inflação, dificuldades económicas, problemas sociais e algum cansaço político acabaram por criar condições para alternância.
Mas a atitude institucional de Ulisses — reconhecendo rapidamente a derrota e anunciando a saída da liderança do partido — também ajudou a reforçar a imagem de maturidade democrática do país.
Mesmo com maioria absoluta, existe um dado impossível de ignorar: mais de metade dos eleitores não votou.
Essa realidade limita parcialmente a euforia política da vitória.
A elevada abstenção mostra que:
Com maioria absoluta, o PAICV deixa de ter desculpas parlamentares.
A partir desta noite:
Os cabo-verdianos deram poder ao PAICV.
Agora começam também a medir resultados.