
A declaração de Ulisses Correia e Silva marca um dos momentos politicamente mais importantes da democracia cabo-verdiana nos últimos anos. Antes mesmo do apuramento final, o líder do MpD reconheceu a derrota eleitoral, felicitou o presidente do PAICV pela vitória e anunciou a intenção de apresentar a sua demissão da liderança partidária.
Mais do que uma simples reação eleitoral, trata-se de um gesto com forte carga política e simbólica.
O mais interessante desta eleição é que o MpD não sofreu uma derrota esmagadora. Pelo contrário: os números mostram um país praticamente dividido ao meio.
Durante grande parte da noite, a diferença entre PAICV e MpD oscilou em poucos milhares de votos e poucos deputados. Isso explica o próprio tom do discurso de Ulisses Correia e Silva: reconhecimento da derrota, mas sem dramatização nem linguagem de colapso político.
O primeiro-ministro cessante sabe que perdeu o Governo, mas também sabe que o MpD continua extremamente forte eleitoralmente.
Na prática, o partido perde o poder por desgaste acumulado de governação, inflação, dificuldades económicas e erosão natural após anos no executivo — não por implosão eleitoral.
Ao anunciar desde já a disponibilidade para deixar a presidência do partido, Ulisses tenta controlar politicamente a sucessão interna e evitar futuras divisões.
O gesto tem três objetivos:
É também uma forma de proteger o seu legado. Ulisses sai reconhecendo a derrota de forma institucional, democrática e serena — algo valorizado na cultura política cabo-verdiana.
O próprio Ulisses sublinhou o ponto central da noite: ainda falta perceber se o PAICV governará com maioria absoluta ou relativa.
E essa diferença muda profundamente o cenário político nacional.
O país entra numa nova fase parlamentar:
Nesse cenário, o MpD poderia continuar muito influente mesmo na oposição, condicionando debates nacionais e preparando rapidamente um regresso ao poder.
O PAICV ganha margem confortável para governar sozinho, controlar a agenda parlamentar e reconstruir o poder político nacional.
Nesse caso, o impacto da derrota do MpD será mais profundo:
Independentemente do número final de deputados, esta noite parece marcar o fim de um ciclo político iniciado em 2016.
Ulisses Correia e Silva deixa o poder ainda como líder respeitado dentro e fora do partido, mas a eleição mostra que o eleitorado cabo-verdiano entrou numa lógica mais volátil, mais exigente e menos disponível para conceder longas hegemonias políticas.
O país parece regressar ao equilíbrio competitivo entre os dois grandes partidos históricos.
E isso, por si só, já representa uma mudança estrutural na política cabo-verdiana.