
Às 22h30, os dados provisórios da CNE desenham um cenário político histórico em Cabo Verde. Com 62 dos 66 deputados já projetados, o PAICV surge na frente com 31 deputados e 45,6% dos votos, contra 29 deputados e 44,4% do MpD. A UCID aparece com 2 deputados e 5,4% dos votos nacionais.
Faltam ainda eleger apenas quatro deputados:
2 em Santo Antão
2 no círculo das Américas
E tudo indica que esses mandatos deverão ser repartidos entre PAICV e MpD.
Se essa tendência se confirmar, o resultado final ficará muito provavelmente em:
* PAICV — 33 deputados
* MpD — 31 deputados
* UCID — 2 deputados
Ou, num cenário alternativo igualmente plausível:
* PAICV — 32 deputados
* MpD — 32 deputados
* UCID — 2 deputados
Em qualquer dos cenários, há uma conclusão política que começa a ganhar força nesta noite eleitoral:
## É quase seguro dizer: acabaram as maiorias absolutas em Cabo Verde
O sistema político cabo-verdiano parece entrar numa nova fase, marcada por equilíbrio estrutural entre os dois grandes partidos e pelo regresso da lógica parlamentar de negociação.
Durante décadas, Cabo Verde habituou-se a ciclos de maiorias absolutas relativamente confortáveis, primeiro do PAICV e depois do MpD. Mas os números desta noite mostram um país praticamente dividido ao meio.
Nem o desgaste do poder foi suficiente para provocar uma derrota clara do MpD, nem o regresso do PAICV produziu uma onda eleitoral avassaladora. O resultado é um Parlamento extremamente equilibrado.
O dado mais simbólico da noite poderá ser outro: os dois deputados eleitos pela UCID em São Vicente podem transformar-se nos deputados mais importantes da próxima legislatura.
Num Parlamento sem maioria absoluta, a UCID ganha capacidade negocial inédita nos últimos anos. O partido poderá tornar-se decisivo:
* na aprovação do programa do Governo;
* no Orçamento do Estado;
* em revisões legislativas sensíveis;
* e até na estabilidade política do executivo.
Ironia política: quando muitos analistas antecipavam um esmagamento do voto útil em São Vicente, a UCID consegue manter representação suficiente para voltar ao papel histórico de fiel da balança.
Outro elemento central desta eleição é a elevada abstenção observada ao longo do dia. A fraca mobilização sugere um eleitorado mais cauteloso, menos emocional e menos disponível para entregar cheques em branco aos grandes partidos.
Na prática, os eleitores parecem ter enviado uma mensagem clara:
querem alternância, mas também querem equilíbrio e controlo político.
Se os resultados finais confirmarem esta tendência, Cabo Verde poderá entrar numa fase política mais parlamentar, mais negociada e menos dominada por maiorias absolutas — uma mudança profunda na cultura política nacional.
NN