
Há imagens que ultrapassam a espuma da campanha eleitoral. Fotografias que deixam de pertencer a um partido, a um candidato ou a uma estratégia de comunicação, para passarem a pertencer ao país. Esta é uma delas.
O presidente do MpD e primeiro-ministro abraça uma mulher vestida com uma camisola do PAICV, durante uma arruda no bairro de Ponta de Àgua na cidade da Praia À superfície, muitos procurarão interpretações políticas: conquista simbólica, gesto de proximidade, marketing eleitoral, sinal de transversalidade. Tudo isso pode existir. Em política, quase tudo carrega cálculo e simbolismo.
Mas talvez o essencial da fotografia esteja noutro lugar. E nós nunca aceitamos palas nos olhos para poder ver todos os ângulos.
O que esta imagem realmente mostra é o retrato íntimo da democracia cabo-verdiana.
Um país pequeno, pobre em recursos, vulnerável a crises, secas, emigração e desigualdades, mas que construiu uma das democracias mais sólidas de África e do mundo não apenas porque soube organizar eleições livres, mas porque soube aceitar os resultados delas.
A democracia cabo-verdiana cresceu mais na forma como os derrotados souberam aceitar a derrota do que na forma como os vencedores celebram a vitória.
Esse talvez seja o maior segredo nacional.
Ao longo da nossa história recente, houve momentos em que a tensão política poderia ter empurrado o país para caminhos perigosos. Houve campanhas duras. Houve ressentimentos acumulados. Houve injustiças sentidas de ambos os lados. Houve bairros divididos, famílias separadas pela política, militâncias inflamadas, radicalismos alimentados nas esquinas e agora também nas redes sociais.
Muitas vezes colocaram a estopa e a pólvora juntas.
Faltava apenas que viesse o diabo assoprar.
Mas Cabo Verde escolheu outro caminho.
Escolheu o entendimento em vez da rutura. Escolheu a paz social em vez da convulsão. Escolheu continuar a conversar mesmo quando doía. Não porque faltassem razões para o confronto — elas existiram e continuam a existir — mas porque o país compreendeu cedo que destruir a convivência nacional seria destruir a si próprio.
É por isso que esta fotografia tem força.
Ela mostra algo que muitos discursos já não conseguem explicar: em Cabo Verde, a disputa política raramente matou a ideia de pertença comum. Depois da contagem dos votos, o país continua obrigado a sentar-se à mesma mesa, a viver na mesma rua, a apanhar o mesmo aluguer, a dividir os mesmos bairros e os mesmos problemas.
No fundo, esta imagem já é Cabo Verde depois do dia 17.
Quem vencer saberá que governa um povo que não desaparece no dia seguinte às eleições. Quem perder fará, como sempre fez, os seus dias de luto político, lamberá as feridas, procurará explicações, reorganizará esperanças — mas continuará parte da mesma construção coletiva.
É assim que temos sobrevivido como democracia.
Não sem dor. Não sem tensão. Não sem injustiças e revoltas ocasionais. Mas com uma maturidade rara: a consciência de que nenhum ciclo eleitoral vale o preço da destruição da paz social.
Talvez seja isso que o mundo muitas vezes vê em Cabo Verde e nós próprios esquecemos de valorizar.
A nossa maior vitória democrática nunca foi apenas saber votar.
Foi saber continuar juntos, na incomodidade das nossas opiniões, depois da votação.
Eduino Santos