Análise: em Cabo Verde representar a indignação é uma coisa. Transformá-la em deputados continua a ser o mais difícil

10/05/2026 19:41 - Modificado em 10/05/2026 19:41
Assembleia Nacional Cabo Verde


A entrevista mostra-nos um partido renovado, com um discurso social genuíno, mas deixa a dúvida no ar. O PTS está preparado para governar ou apenas para protestar? Porque em Cabo Verde, representar a indignação é uma coisa. Transformá-la em deputados continua a ser o mais difícil.

Por: Eduino Santos
 
 
A análise ao discurso do Partido do Trabalho e da Solidariedade (PTS) soa a um problema antigo da política cabo-verdiana: o que fazer quando se representa “o povo invisível” mas não se tem máquina, dinheiro ou deputados para se fazer ouvir?
 
Numa campanha cheia de promessas de aeroportos futuristas e discursos de “Cabo Verde no caminho certo”, a entrevista da presidente do PTS ao Expresso das Ilhas tem o mérito raro de falar de frustração. Não há drones a sobrevoar multidões, há revolta. E é talvez por isso que o partido consegue falar diretamente com aquela franja do eleitorado que já não se revê nos suspeitos do costume, mas que também não sabe se pode confiar nos mais pequenos. E mais importante : não se sabe se está recenseado ,portanto se vota.
 
O PTS tenta vender uma imagem de juventude, renovação e proximidade. A sua líder insiste que “o Parlamento não representa os jovens”, uma crítica que, olhando para a realidade do país, não é descabida. Temos provavelmente a geração mais qualificada da nossa história e, ao mesmo tempo, uma das mais frustradas. Só que o grande problema é que, para muitos destes jovens, o sonho já não é entrar para a política, é sair do país.
 
Quando o partido ataca o “bipartidarismo que sufoca a sociedade”, acerta no sentimento de muitos, mas esbarra na matemática cruel do nosso sistema eleitoral, que parece ter sido desenhado precisamente para favorecer as grandes máquinas partidárias. É o drama existencial dos pequenos partidos: dão voz a descontentamentos reais, mas essa indignação raramente se converte em mandatos.
 
A grande bandeira social do PTS, a promessa de “zero casas de tambor e zero barracas”, tem uma força simbólica imensa. Fala diretamente para a pobreza urbana que as campanhas preferem esconder. A questão, claro, é saber como. Uma solução real para a habitação em Cabo Verde exige terrenos, financiamento, urbanização e uma capacidade estatal que vai muito além da simples vontade. Na entrevista, o partido prefere indignar-se contra os poderosos a explicar a engenharia financeira do seu plano. Aqui parece jogar na no mesmo campo do líder do PAICV que diz que vai acabar com todas as barracas e não explica como.
 
Sente-se sinceridade no discurso do PTS, talvez até mais sinceridade do que cálculo político. Isso distingue-os num cenário em que tudo parece sair do mesmo laboratório de marketing. Mas também se nota uma certa imaturidade. O partido ainda soa mais a um movimento social do que a uma estrutura preparada para governar. A crítica ao sistema é forte, mas a apresentação de soluções concretas ainda parece difusa. Mas é uma lição para ditos movimentos ativista que acabam a ler pela cartilha quer do MpD , quer do PAICV . Essa sinceridade , em particular depois do debate na TCV, criou uma onda de empatia com a líder do PTS .
 
Curiosamente, um dos momentos mais fortes da conversa surge quando a presidente é questionada sobre as listas maioritariamente femininas e responde: “Por que não questionamos a maioria masculina nas outras listas?”. É talvez uma das respostas mais inteligentes desta campanha. Expõe uma verdade desconfortável: há décadas que as listas são dominadas por homens e ninguém acha estranho; basta aparecer uma maioria de mulheres para que isso se transforme num assunto político.
 
No fundo, o PTS parece falar para os excluídos: os jovens frustrados, os moradores dos bairros periféricos, os trabalhadores precários, os cidadãos das ilhas que se sentem esquecidas. O problema é que este eleitorado é, muitas vezes, o mesmo que se abstém, que desconfia de todos os políticos ou que, à última hora, acaba por fazer um “voto útil” nos grandes ou, mais provável,  tem vindo a aumentar taxas de abstenção que , por exemplo em São Vicente , nas eleições  autárquicas de 2024  atingiu os 52 %
 
A insistência de que “os outros são mais do mesmo” é a estratégia clássica dos partidos que correm por fora. E, em muitos aspetos, podem ter razão. Mas a política cabo-verdiana tem uma realidade estatística bem conhecida: muita gente concorda com os pequenos nas redes sociais, mas dentro da cabine de voto, acaba por escolher quem já conhece.
 
Sobre coligações, o PTS é cauteloso, e faz bem. Antes de pensar em governabilidade, o partido tem um desafio mais imediato pela frente: sobreviver e conseguir, finalmente, entrar no Parlamento.
 
A entrevista mostra-nos um partido renovado, com um discurso social genuíno, mas deixa a dúvida no ar. O PTS está preparado para governar ou apenas para protestar? Porque em Cabo Verde, representar a indignação é uma coisa. Transformá-la em deputados continua a ser o mais difícil.

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