No fundo, a grande mudança é esta: Cabo Verde entrou de cabeça na democracia do scroll. Antigamente, os partidos lutavam por praças; hoje, lutam por três segundos da nossa atenção no feed. Antes, bastava um bom discurso; agora, é preciso boa edição, música que toque no coração e uma espontaneidade que, na maioria das vezes, é cuidadosamente ensaiada. Porque o eleitor de hoje continua a votar. Mas, primeiro, desliza o dedo pelo ecrã.
Por: Eduino Santos

Há semanas que a conversa é a mesma, seja nas ruas do Mindelo, nos cafés da Praia ou em qualquer roda onde a política ainda é o nosso desporto preferido: “esta campanha está mesmo fria”.
Vê-se menos gente nos comícios, ouvem-se menos carros de som a passar, e as bandeiras parecem agitar-se com menos alma. Aquele ambiente de festa, meio comício, meio convívio, parece ter perdido o gás de outros tempos.
Então, resolvemos fazer uma experiência. Fomos perguntar ao ChatGPT o que achava da campanha dos partidos cabo-verdianos nas redes sociais, especialmente no Facebook. E a resposta da inteligência artificial foi um murro no estômago para quem ainda mede o pulso de uma eleição pelo tamanho das multidões: a campanha não morreu. Apenas mudou de sítio.
Enquanto as ruas andam a meio-gás, o Facebook ferve. É um corrupio de vídeos emotivos, lives, memes, militantes digitais cada vez mais organizados, comentários inflamados e guerras partidárias travadas em cada grupo de discussão. O telemóvel transformou-se no grande comício nacional, e os partidos, claro, já perceberam isso.
Talvez a maior surpresa que a IA encontro seja Ulisses Correia e Silva. Durante anos, conhecemo-lo como o gestor sério, quase tecnocrata, aquele político que parecia mais à vontade com folhas de cálculo do que com banhos de multidão. Mas quem espreita hoje a sua página de Facebook encontra outra pessoa: vídeos com drones e música épica, multidões filmadas em câmara lenta, abraços, crianças ao colo e uma imagem de festa permanente, tudo cuidadosamente editado.
A lição que o MpD parece ter tirado é simples: o algoritmo não premeia competência técnica, premeia emoção. E, de repente, temos um Ulisses mais leve, mais próximo, quase um “influencer institucional”.
Do outro lado, o PAICV continua a apostar numa comunicação mais agressiva, a mobilizar pela indignação. Os seus vídeos falam de mudança, de energia popular, de revolta, e tentam construir uma narrativa de “agora ou nunca”. Já o MpD joga noutro campo emocional: o da tranquilidade. A mensagem subliminar é clara: “o mundo lá fora está um caos, mas connosco o barco continua a navegar em águas seguras”. Numa altura em que as pessoas estão cansadas de crises, inflação e incertezas, é uma estratégia politicamente astuta.
E a UCID? Parece que ainda não apanhou este comboio. Embora mantenha uma presença online, a sua comunicação parece presa a uma outra era da internet, com mais discurso e menos narrativa visual.
Enquanto MpD e PAICV profissionalizaram a sua imagem, a UCID ainda soa a amadorismo digital. Curiosamente, António Monteiro, que durante anos foi o rosto mais carismático do partido em São Vicente, anda agora mais apagado. E no Facebook, desaparecer um pouco é o primeiro passo para desaparecer de vez.
Para os partidos mais pequenos, como o PTS e o PP, a realidade é ainda mais brutal: sem redes sociais, são praticamente invisíveis. Por isso, apostam tudo em vídeos simples e num discurso direto, antissistema. Fizeram da falta de recursos uma estética de proximidade. Às vezes por convicção, outras porque o orçamento também ajuda a definir a filosofia.
Então, a campanha está mesmo “fria”? Talvez esteja fria só para quem a procura nos sítios do costume, à espera dos carros de som, das multidões na rua e da euforia nos bairros. A verdade é que a política, silenciosamente, mudou de morada. Hoje, a mobilização faz-se no Facebook, nos grupos de WhatsApp, nos vídeos curtos e na guerra dos comentários. Já não é preciso sair de casa para participar; basta ter o telemóvel carregado.
No fundo, a grande mudança é esta: Cabo Verde entrou de cabeça na democracia do scroll. Antigamente, os partidos lutavam por praças; hoje, lutam por três segundos da nossa atenção no feed. Antes, bastava um bom discurso; agora, é preciso boa edição, música que toque no coração e uma espontaneidade que, na maioria das vezes, é cuidadosamente ensaiada.
Porque o eleitor de hoje continua a votar. Mas, primeiro, desliza o dedo pelo ecrã.