
Se há frase que já virou hino na política cabo-verdiana, é o tal do “governar para todos”. É um clássico que funciona sempre: soa bem, parece inclusivo e livra qualquer candidato de se meter em chatices ideológicas. Desta vez, foi Francisco Carvalho quem a usou, garantindo que, se ganhar, vai governar “sem olhar a cores e partidos”.
Por : Eduino Santos
O país ouviu. De novo. Porque a verdade é que, em Cabo Verde, todos os candidatos prometem governar para todos… até ao dia em que é começam distribuir os cargos. A campanha de Francisco Carvalho parece uma reedição dos maiores sucessos da política nacional, só que com uma capa nova.
O menu é o de sempre: mais emprego, casa para todos, saúde gratuita, ensino superior para quem quiser, viagens entre ilhas mais baratas e mais poder para as câmaras. O problema não é o que se promete. É que o eleitor já consegue adivinhar o discurso antes mesmo de o microfone ser ligado. E, claro, não podiam faltar os famosos 11 aviões e os 45 mil empregos prometidos pelo governo, que voltaram a ser tema de ataque.
É curioso como certas promessas políticas em Cabo Verde parecem envelhecer melhor que um bom vinho. Os aviões, por exemplo, já voaram muito mais nos discursos do que nos céus do país.
Outro clássico que não falhou foi a acusação de que o Governo central está a travar os projetos das autarquias com burocracias e inspeções. A história é sempre a mesma: os municípios querem trabalhar, mas o poder em Lisboa, perdão, na Praia, não deixa. É a desculpa preferida da oposição em todo o mundo.
O engraçado é que todos os partidos defendem a “desburocratização” enquanto estão de fora. Assim que chegam ao poder, descobrem subitamente que, afinal, os procedimentos existem por alguma razão.
baixar preços em campanha é a coisa mais fácil do mundo.
A promessa de viagens de barco a 500 escudos e de avião a 5 mil também mexe com qualquer um, sobretudo com quem vive nas ilhas e sente na pele o custo dos transportes. É música para os ouvidos. Só que, no meio do entusiasmo, a pergunta mais importante fica por fazer: quem vai pagar a diferença? É que baixar preços em campanha é a coisa mais fácil do mundo. Difícil é fazer as contas baterem certo depois de tomar posse. Mas as campanhas não vivem de folhas de Excel, vivem de aplausos.
Na reportagem publicada pelo jornal “A Nação” a mensagem do PAICV é emocional e inteligente: inclusão, proximidade, união. Tudo o que um país cansado de polarização e de dificuldades económicas quer ouvir. O problema é que esta conversa já não é nova. Já a ouvimos de praticamente todos os partidos. O que muda, no fim, é só a cor da camisola.
E enquanto os líderes políticos sobem o tom, nas ruas o ambiente é morno. Vêem-se menos multidões, sente-se menos entusiasmo, menos daquela euforia quase festiva de outros tempos. Talvez o eleitor esteja só mais desconfiado. Ou talvez o preço do arroz e do óleo já tenha vencido o entusiasmo político. Ou, quem sabe, talvez Cabo Verde esteja a entrar naquela fase perigosa da democracia em que as pessoas continuam a ouvir, sim, mas já não acreditam com a mesma facilidade. No fim, Francisco Carvalho promete governar para todos. Ulisses promete estabilidade para todos. E qualquer outro candidato que apareça vai prometer alguma coisa… para todos. Acontece que o eleitor já percebeu uma coisa simples: em tempo de campanha, Cabo Verde cabe inteiro no discurso. Depois das eleições, o país parece encolher e já não cabe assim tanta gente nas prioridades.