A campanha do PTS prossegue com esta promessa que toca na ferida: dar voz aos “invisíveis”. É uma frase forte, quase poética, e talvez das mais honestas que vamos ouvir nestas eleições. Porque, vamos ser francos, Cabo Verde está cheio de gente invisível. Gente que não entra nas estatísticas do Governo, que não aparece nos discursos sobre crescimento económico e que, nos comícios, serve apenas para encher o fundo da fotografia.
Por . Eduino Santos

Enquanto os partidos grandes andam em caravanas vistosas, o PTS parece preferir um porta-a-porta com mais alma. A campanha deles faz-se nos bairros, nos mercados, em conversas de perto, com muito mais gente e menos aparato. Parece que perceberam o óbvio: sem dinheiro, sem máquina partidária e com pouco tempo de antena, o que lhes resta é o contacto humano. Se calhar é por isso que a campanha deles cheira mais a poeira de bairro do que a marketing político.
Claro que os “invisíveis” existem. A grande questão é se votam em número suficiente para mudar alguma coisa. O discurso do PTS fala de problemas reais, que doem: o trabalho precário, os jovens sem futuro, o custo de vida, a sensação de abandono e, acima de tudo, o cansaço com a política e as suas promessas vazias. O problema é que, em Cabo Verde, os partidos pequenos são bons a apontar o dedo aos problemas, mas péssimos a lidar com a frieza dos números. Entre ouvir o desabafo de quem se sente esquecido e eleger um deputado, há um abismo que costuma engolir partidos inteiros.
O interessante no discurso do PTS é que eles não tentam vender milagres
O interessante no discurso do PTS é que eles não tentam vender milagres ou uma ideia de grandeza nacional. Falam de frustração, de gente que está simplesmente farta. E isso, politicamente, aproxima-os dos mais desiludidos, daqueles que já não acreditam no MpD, no PAICV, nem nos slogans de sempre.
É aqui que está a maior ironia. O PTS tenta representar precisamente aqueles que menos participam na política: os pobres das cidades, os trabalhadores informais, os jovens desencantados das periferias. E são exatamente estes os que mais se abstêm, os que mais desconfiam, os que menos aparecem para votar. Ou seja, os invisíveis continuam a ser invisíveis, até no dia das eleições.
Na matéria publicada no jornal “ A Nação” Até o PTS, curiosamente, também, entrou na corrida das promessas sobre os transportes. Falam em mais fiscalização, mais concorrência e até numa nova empresa de autocarros. De repente, parece que todos os partidos chegaram à mesma conclusão: as pessoas estão fartas de pagar uma fortuna para andar entre as ilhas ou dentro da própria cidade. É uma descoberta um bocado tardia, mas que dá sempre jeito em tempo de campanha.
O lema da “campanha olhos nos olhos” é bonito, num país onde a política costuma olhar mais para as sondagens. Serve para criar uma identidade, mas também mostra outra coisa: sem dinheiro, o partido faz da necessidade uma virtude. Enquanto os grandes montam palcos, o PTS aposta na conversa. Não é só filosofia; às vezes, a ideologia é o que se consegue fazer com o que se tem na conta bancária.
A homenagem a Romeu di Lurdis mostra que o partido ainda vive muito da memória do seu antigo líder. Talvez isso explique este tom de missão social, mais focado no sentimento do que em soluções práticas. O problema é que a emoção, sozinha, não costuma dar votos suficientes para sobreviver ao nosso sistema eleitoral.
No fim de contas, parece que o PTS está a lutar uma batalha diferente. O MpD quer manter o poder, o PAICV quer recuperá-lo, e a UCID tenta não desaparecer. O PTS quer algo mais simples: continuar a existir. Porque em Cabo Verde, os partidos pequenos vivem sempre neste fio da navalha, entre a resistência e o esquecimento.
O PTS quer dar voz aos esquecidos, e talvez seja o único discurso que realmente ecoa a dor de quem vive à margem. Mas a nossa política é uma máquina feita para ouvir melhor quem tem dinheiro, estrutura e votos organizados. E os invisíveis? Continuam por aí. A única diferença é que, em época de eleições, pelo menos aparecem nas fotografias.