
O Partido Popular quer eleger o seu primeiro deputado, mas, para isso, tem de convencer o eleitorado de que é mais do que um simples protesto com um logotipo no boletim de voto.
A campanha do PP arrancou com um objetivo claro, mas gigantesco: eleger, pela primeira vez, um deputado. É aqui que começa o drama de quase todos os pequenos partidos em Cabo Verde, que vivem naquela linha perigosa entre serem uma “alternativa real” e acabarem como mais um “comentário político” no dia das eleições.
Por: Eduino Santos
Amândio Barbosa Vicente, o líder, foi rápido a jogar a carta do costume dos partidos com poucos recursos: a da falta de dinheiro. Ao dizer que “não temos os milhões dos outros”, ele transforma uma fraqueza numa virtude. De repente, a falta de meios vira um argumento moral: o PP é o partido humilde, do povo, longe das campanhas milionárias e dos carros de som dos grandes.
No fundo, é uma tentativa de vender autenticidade num mercado político cheio de máquinas pesadas e promessas bem ensaiadas.
O problema é que a vontade e a indignação, por mais genuínas que sejam, esbarram na parede da nossa lei eleitoral. Para eleger um deputado, não basta ter razão ou fazer barulho nas redes sociais; é preciso furar a barreira dos círculos eleitorais, um sistema desenhado para favorecer quem já é grande.
Os pequenos sabem bem o que isto significa: acabam a colecionar “derrotas honrosas”, com alguns de votos que, na prática, não valem um único assento no parlamento.
O discurso do PP é o que se espera: um ataque à partidarização do Estado, a promessa de reduzir deputados e as críticas de sempre ao MpD e ao PAICV. São temas que batem certo com aquela fatia de eleitores que já está farta de ver as mesmas caras e ouvir a mesma conversa.
A ironia é que, em Cabo Verde, quase todos os novos partidos nascem com a promessa de “romper o sistema”, mas depois passam a vida a lutar desesperadamente só para conseguir pôr lá um pé dentro.
O PP acerta em cheio quando puxa a conversa para os problemas do dia a dia
Mas, na entrevista concedida ao jornal “A Nação” o PP acerta em cheio quando puxa a conversa para os problemas do dia a dia. Ao falar do custo de vida, da falta de casas, do preço dos medicamentos ou dos salários que não esticam, o partido fala uma língua que toda a gente entende. Enquanto os grandes se perdem a discutir os números da economia, há gente que só quer ir ao supermercado sem sentir um aperto no peito. E é aqui que pode estar o trunfo do PP.
Claro que não podia faltar o tema sagrado da política nacional: os transportes entre ilhas. O PP defende a nacionalização e atira-se às concessões, juntando-se ao coro de vozes que, eleição após eleição, usa os barcos como arma política. Falar mal dos transportes em Cabo Verde já nem é uma posição ideológica, é quase um pré-requisito para se ser candidato.
A campanha, essa, faz-se com o que se tem. Vídeos para as redes sociais, porta a porta e muita presença nos bairros. O partido chama-lhe uma estratégia de “proximidade”, mas, sejamos honestos, é também o que se arranja quando o dinheiro é curto.
Enquanto os grandes fazem caravanas, o PP faz campanha à base de sola de sapato e muita conversa.
No fim de contas, o maior inimigo do PP talvez não seja o MpD ou o PAICV. A verdadeira batalha é contra o medo de deitar o voto fora. Num sistema dominado por dois gigantes, convencer as pessoas de que um voto pequeno conta é, talvez, a missão mais difícil de todas.
É aquela velha história: muita gente até concorda com eles na conversa de café, mas, sozinhos na cabine de voto, o pragmatismo e a lógica do “voto útil” falam mais alto. É contra isto que o PP luta.
A ambição de eleger um deputado é a ambição de provar que há vida para além do duopólio MpD-PAICV. É a tentativa de transformar o descontentamento da rua numa cadeira no Parlamento. Mas entre querer romper o sistema e conseguir sobreviver lá dentro, vai uma distância que poucos slogans conseguem percorrer.
A grande questão é se o eleitor quer mesmo ouvir uma música nova ou se, no fundo, prefere apenas
ouvir os velhos sucessos, cantados por uma voz diferente.