A UCID entrou na campanha a puxar por aquele discurso clássico de quem sente que
as contas eleitorais já não batem tão certo: “não queremos deputados dos partidos,
queremos representantes do povo”. É uma frase bonita, comove e soa a democracia
pura.
Por Eduino Santos

O problema é que, ultimamente, o povo de São Vicente tem dado sinais de que anda à procura de outros representantes, e isso baralhou o jogo todo para a UCID. Na Praia, a aposta de última hora num dissidente do MpD é uma verdadeira incógnita – ninguém sabe se vai render mais votos, quanto mais um mandato.
Tudo isto tem a ver com as autárquicas de 2024, que deixaram feridas abertas. Durante anos, a UCID fez de São Vicente a sua fortaleza, crescendo a cada eleição. Mas o ano de 2024 trouxe uma realidade amarga: o PAICV ultrapassou-os na ilha. E em política, há derrotas que doem mais pelo simbolismo do que pelos números.
São Vicente sempre foi o pulmão da UCID, o sítio onde o partido respirava confiança, garantia a sua sobrevivência no Parlamento e jogava um papel de charneira nas autarquias. Quando esse chão treme, tudo o resto abana.
O grande drama da UCID, no fundo, resume-se a um número: quatro. Os quatro deputados que São Vicente historicamente lhes garantiu de forma confortável. Desta vez, porém, o cenário está bem mais apertado. Não é que a UCID tenha deixado de lutar, mas o PAICV percebeu algo crucial: se conseguir roubar esses mandatos, o equilíbrio de forças a nível nacional muda por completo.
É por isso que o PAICV chegou à ilha com uma fome de votos que não se via há muito tempo. Para eles, basta repetir a receita de 2024.
Outro pormenor impossível de ignorar é o posicionamento de António Monteiro, talvez a ausência mais presente desta campanha. Uma coisa era a UCID com Monteiro na linha da frente – combativo, onipresente, a cara do partido em São Vicente. Outra, bem diferente, é vê-lo “escondido” num terceiro lugar na lista.
Em política, o lugar na lista fala, e por vezes mais alto que os discursos. Muita gente está a ler esta jogada
como um plano B, uma espécie de bilhete de regresso à vereação da Câmara Municipal, caso as coisas se compliquem no acesso ao Parlamento.
Enquanto isso, quem domina os outdoors é João Santos Luís, quase sempre sozinho. A imagem passa uma mensagem subtil mas clara: “agora sou eu”. É uma tentativa óbvia de afirmar uma nova liderança, de renovar a cara do partido e, quem sabe, de preparar uma era pós-Monteiro sem nunca o admitir abertamente. É a tal dança da política cabo-verdiana, onde toda a gente percebe o que está a acontecer, mas ninguém o diz
em voz alta.
A estratégia, agora na voz de Santos Luís, continua a ser a mesma de sempre: evitar maiorias absolutas e apresentar a UCID como o árbitro do equilíbrio parlamentar.
Politicamente, faz todo o sentido. O partido sempre se deu bem no papel de consciência moderadora entre o MpD e o PAICV. O problema é que a credibilidade como árbitro ficou beliscada em 2020, quando, na disputa pela câmara de São Vicente, se aliou ao PAICV, resultando num bloqueio de quatro anos que paralisou a governação.
Com esse histórico, o partido hoje parece menos um árbitro e mais uma equipa a lutar para não descer de divisão.
Na matéria publicada no jornal “A Nação” a UCID repete as promessas de sempre – aumento salarial, reforço das pensões, melhor governação – mas o terreno mudou. O eleitor de São Vicente já não vota na UCID por pura identidade regional. A concorrência é maior, e a fidelidade partidária já não é o que era. O PAICV finalmente percebeu, ainda que tarde, que o seu verdadeiro adversário em São Vicente é a UCID,
não o MpD.
Talvez aqui esteja o verdadeiro nó desta campanha. A UCID já não luta apenas para crescer; luta para se manter relevante. Porque na política cabo-verdiana, o risco mais silencioso é deixar de ser visto como uma alternativa e passar a ser apenas uma nostalgia parlamentar.
No fim de contas, o cenário é este: João Santos Luís pede votos para equilibrar um parlamento que nem Monteiro, no auge da UCID, conseguiu equilibrar. O PAICV quer roubar o espaço que um dia já foi seu. E o MpD assiste de bancada, sabendo que a queda de um e a estagnação do outro podem muito bem valer-lhe mais um deputado.
No meio disto tudo, a pergunta que fica no ar em São Vicente é simples: a UCID ainda é o voto de coração da ilha, ou está a caminho de se tornar apenas uma boa memória com cartazes novos?
No dia 17 de Maio, teremos a resposta.