Se houve sempre um lugar onde a política ganhava ritmo, cor e até algum improviso, esse lugar era o Mindelo. Isto desde do bailes populares que serviram como palco de mobilização para o PAIGC em 1974/75. Para não falar de Onésimo, em 1991, a entrar por entre tochas acesas e foguetes a explodir no palco escoltado por gente dos bairros . Mas desta vez, a campanha eleitoral parece ter perdido o compasso — e ninguém sabe bem onde ficou o maestro.
Por: Eduino Santos

Não é apenas sensação de um ou outro mais atento. É algo que se nota nas ruas, nos bairros e até nos próprios comícios: há menos gente. E quando há, falta aquele ambiente que fazia dos comícios verdadeiros momentos de encontro. Os partidos dizem-no — ainda que com algum desconforto — e a cidade confirma: a mobilização não é a mesma.
Houve um tempo em que comício em São Vicente era quase sinónimo de festa. Mais do que discursos, era o convívio, o reencontro, aquele “coke e bafa” que fazia parte do ritual e que, muitas vezes, pesava mais do que qualquer programa político. Hoje, nem isso parece suficiente para tirar os mindelenses de casa. Os palcos continuam a ser montados, os microfones continuam a funcionar, mas falta o essencial: o público.
E se antes o som da campanha invadia a cidade, agora há um silêncio estranho. Os carros de som — esses mesmos que circulavam com mais barulho do que mensagem — tornaram-se raros. De vez em quando aparece um, quase como lembrança de outros tempos. A dúvida fica: é falta de dinheiro, falta de estratégia… ou simplesmente falta de paciência de quem ouve?
Quando todos os partidos se queixam do mesmo — pouca adesão — dificilmente o problema é isolado. E há um dado que paira como sombra sobre esta campanha: os 53% de abstenção nas autárquicas de 2024. Metade do eleitorado ficou em casa. Não é um detalhe. É um sinal.
Pode ser cansaço. Pode ser descrença. Pode ser apenas mudança de hábitos num tempo em que as redes sociais substituíram a praça pública e onde tudo — promessas, falhas, contradições — é exposto em tempo real. O comício, que antes mobilizava, hoje parece repetir-se.
Mindelo continua a ser Mindelo. Mas a campanha já não é a mesma. Menos festa, menos gente, menos barulho. E talvez menos ilusão. Quem sabe.
Resta saber se isto é apenas uma pausa no entusiasmo… ou se é a política a perder, lentamente, o seu palco na cidade que sempre viveu de palco.