MINDELO | Campanha fria… e nem o “coke e bafa” salva o ambiente

5/05/2026 16:25 - Modificado em 5/05/2026 16:25

Se houve sempre um lugar onde a política ganhava ritmo, cor e até algum improviso, esse lugar era o Mindelo. Isto desde do bailes populares que serviram como palco de mobilização para o PAIGC em 1974/75. Para não falar de Onésimo, em 1991,  a entrar por entre tochas acesas  e foguetes a explodir  no palco escoltado por gente dos bairros .  Mas desta vez, a campanha eleitoral parece ter perdido o compasso — e ninguém sabe bem onde ficou o maestro.

Por: Eduino Santos

São Vicente 2026

Não é apenas sensação de um ou outro mais atento. É algo que se nota nas ruas, nos bairros e até nos próprios comícios: há menos gente. E quando há, falta aquele ambiente que fazia dos comícios verdadeiros momentos de encontro. Os partidos dizem-no — ainda que com algum desconforto — e a cidade confirma: a mobilização não é a mesma.

Houve um tempo em que comício em São Vicente era quase sinónimo de festa. Mais do que discursos, era o convívio, o reencontro, aquele “coke e bafa” que fazia parte do ritual e que, muitas vezes, pesava mais do que qualquer programa político. Hoje, nem isso parece suficiente para tirar os mindelenses de casa. Os palcos continuam a ser montados, os microfones continuam a funcionar, mas falta o essencial: o público.

E se antes o som da campanha invadia a cidade, agora há um silêncio estranho. Os carros de som — esses mesmos que circulavam com mais barulho do que mensagem — tornaram-se raros. De vez em quando aparece um, quase como lembrança de outros tempos. A dúvida fica: é falta de dinheiro, falta de estratégia… ou simplesmente falta de paciência de quem ouve?

Quando todos os partidos se queixam do mesmo — pouca adesão — dificilmente o problema é isolado. E há um dado que paira como sombra sobre esta campanha: os 53% de abstenção nas autárquicas de 2024. Metade do eleitorado ficou em casa. Não é um detalhe. É um sinal.

Pode ser cansaço. Pode ser descrença. Pode ser apenas mudança de hábitos num tempo em que as redes sociais substituíram a praça pública e onde tudo — promessas, falhas, contradições — é exposto em tempo real. O comício, que antes mobilizava, hoje parece repetir-se.

Mindelo continua a ser Mindelo. Mas a campanha já não é a mesma. Menos festa, menos gente, menos barulho. E talvez menos ilusão. Quem sabe.

Resta saber se isto é apenas uma pausa no entusiasmo… ou se é a política a perder, lentamente, o seu palco na cidade que sempre viveu de palco.

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