
Ao longo destes dias, tive a oportunidade de participar no Global Sustainable Islands Summit 2026, nas Canárias, um dos mais relevantes fóruns internacionais dedicados ao futuro dos territórios insulares.
Mais do que um encontro institucional, este foi um espaço de afirmação política, conceptual e estratégica num momento em que o mundo enfrenta desafios cada vez mais complexos e interligados.
As ilhas, durante demasiado tempo, foram vistas como espaços periféricos, frágeis e dependentes. Essa visão, traduzida no próprio conceito de “Small Island Developing States”, não é apenas redutora, é limitadora. Limita a forma como os outros nos veem, mas, sobretudo, limita a forma como nos pensamos a nós próprios. E é precisamente essa lógica que começa, finalmente, a ser desafiada.
O que se discutiu nestes dias, de forma clara e crescente, foi uma mudança de paradigma. A ideia de que as ilhas não são pequenas, nem marginais, mas sim centrais no equilíbrio global, particularmente num mundo onde o oceano assume um papel determinante nas questões climáticas, económicas e geopolíticas.
Mais do que territórios de terra, somos espaços de mar, mais do que Estados insulares, somos, em toda a sua dimensão, nações oceânicas.
A importância das palavras
Esta mudança não é apenas semântica, ela é estratégica. Obriga-nos a repensar prioridades, a reorganizar políticas públicas e a assumir um novo posicionamento internacional. Obriga-nos, sobretudo, a abandonar uma lógica de dependência e a afirmar uma lógica de liderança.
Não tenhamos ilusões, esta reflexão não pode ficar confinada aos fóruns internacionais. Tem de ser transportada para a realidade concreta dos países. E aqui reside, talvez, o ponto mais exigente deste debate, a capacidade de transformar visão em ação.
Durante as diferentes intervenções, procurei precisamente trazer esse desafio. Durante demasiado tempo, construímos políticas “perfeitas no papel”, pensadas de cima para baixo, mas desligadas da realidade das pessoas. Modelos sofisticados, mas pouco eficazes. Estratégias bem desenhadas, mas mal implementadas. É tempo de inverter essa lógica. De passar de abordagens “top-down” para modelos “bottom-up”, que partem das comunidades, da cultura e daquilo que realmente mobiliza as sociedades.
Porque a verdadeira transformação não se decreta, constrói-se, e constrói-se com pessoas, com conhecimento e com proximidade.
Neste contexto, um dos aspetos mais relevantes do debate foi a centralidade do investimento em capital humano. Não apenas como um elemento de política social, mas como a principal infraestrutura estratégica de qualquer país. Mais importante do que qualquer porto, estrada ou edifício, é a capacidade de formar uma geração que compreende o seu papel no mundo e que se sente preparada para o assumir.
É aqui que reside a verdadeira escala das nações oceânicas, não na extensão do território que ocupam, mas na qualidade da visão que conseguem projetar e sustentar. Devemos estar focados não apenas na dimensão imediata da sua economia, mas na ambição estratégica com que se posicionam no mundo e na forma como transformam os seus constrangimentos em vantagens competitivas.
Da teoria à prática, inverter o modelo
Para Cabo Verde, esta reflexão não é abstrata nem distante. É profundamente concreta, seja pela sua geografia, pela sua história ou pela sua ligação natural ao Atlântico, o país reúne condições singulares para se afirmar neste novo paradigma. E essa afirmação não acontecerá por inércia nem por mera expectativa, ela exige decisão política, consistência na ação e, acima de tudo, clareza estratégica sobre o caminho a seguir.
Exige, desde logo, a capacidade de compreender que o futuro não se constrói com declarações de intenção, mas com escolhas concretas, muitas vezes exigentes, que implicam prioridades, foco e continuidade.
Exige também a coragem de abandonar modelos que já não respondem aos desafios atuais e de apostar em soluções que partem da nossa realidade, do nosso capital humano e do nosso potencial enquanto país atlântico.
O que ficou evidente ao longo destes três dias é que o mundo está em transformação e que, nesse processo, as ilhas têm hoje uma oportunidade rara de se reposicionarem no sistema internacional. Todavia, essa oportunidade não é automática, nem garantida, ela terá de ser conquistada com visão, com trabalho e com a capacidade de nos afirmarmos com confiança.
E tudo começa, inevitavelmente, pela forma como nos vemos a nós próprios. Se continuarmos a pensar como pequenos, continuaremos a agir como pequenos, e, inevitavelmente, seremos tratados como tal. Se, no entanto, tivermos a ambição de agir como grandes, de pensar com escala e de decidir com responsabilidade, criaremos as condições para que essa ambição se traduza em realidade.
Esse é, no fundo, o verdadeiro desafio que fica destes dias, e é também a responsabilidade que temos perante o futuro. Porque, no final, não se trata apenas de mudar uma designação, trata-se, verdadeiramente, de mudar um destino.
“A atitude é uma pequena coisa que faz uma grande diferença” – Winston Churchill