Entrar nas proposta de Francisco Carvalho é como assistir a um número de trapézio em câmara lenta: o salto é anunciado com confiança, o público prende a respiração… mas a rede ainda está por montar.
O líder do PAICV apresenta um “novo Estado” como quem já está no ar — com promessas de meritocracia, justiça social e instituições mais fortes.
O problema é que, cá em baixo, ninguém viu ainda quem está a esticar a rede, nem com que cordas, nem com que dinheiro.
Fica a pergunta inevitável: quem constrói a rede, onde estão os recursos e, sobretudo, o que acontece se ela não chegar a tempo?
Porque na política, ao contrário do circo, nem sempre há segunda tentativa — e a queda costuma ser coletiva.

Por : Eduino Santos
Se há coisa que não falta na política cabo-verdiana é diagnóstico. Pedro Pires já dizia : em Cabo Verde os diagnósticos estão todos feitos. E Francisco Carvalho chega à entrevista, ao Expressodasilhas, com um bem afinado: o país perdeu confiança nas instituições. Nada de meias palavras. Cabo Verde, diz o líder do PAICV, precisa de recuperar a fé no Estado.
Ou seja: o problema não é só a estrada — é o próprio carro. Até aqui, tudo claro. O problema começa quando se abre o capô.
Novo Estado procura-se (com ou sem instruções)
A grande proposta de Francisco Carvalho é a criação de um “novo Estado”.
Ambicioso. Moderno. Reformado. Quase um “Estado 2.0”.
A ideia inclui:
Tudo certo. Tudo bonito. Tudo… familiar. Porque, na prática, ninguém é contra isso.
A questão é outra. É a questão da rede para o trapezista: como é que isso vai acontecer?
É que dizer “vamos reformar o Estado” em Cabo Verde é como dizer “vamos emagrecer depois das festas”. A intenção é boa — a execução… logo se vê.
Pacote social: dá para todos…haja alguém que paga?
O plano social é generoso:
ensino superior gratuito, saúde mais acessível, transportes mais baratos, mais emprego.
É quase um “menu completo” para o eleitor. O financiamento? Combate ao desperdício e reforma do Estado. Ou seja, basicamente: vamos gastar melhor. Nada contra. Mas há uma pequena dúvida no ar: isso chega para pagar tudo?
É que, como se sabe, o Orçamento Geral do Estado não cresce por entusiasmo político. E o GAO, grupo de países e instituições que apoiam o nosso Orçamento , pode não alinhar nesse …entusiasmo
Transportes, economia e aquela velha promessa
Carvalho toca em pontos certos:
transportes interilhas (finalmente)
setor primário
industrialização
Tudo áreas onde Cabo Verde já prometeu revoluções… que acabaram em versões demo.
A diferença agora? A narrativa é mais urgente.
Mas continua a faltar o detalhe que transforma intenção em obra.
Mudança total… mas com memória seletiva
O candidato posiciona-se como o rosto da mudança. E consegue.
Mas há um detalhe curioso: o discurso aponta falhas estruturais no Estado… sem grande espaço para lembrar que o próprio sistema tem história partilhada. Que o PAICV esteve 30 anos no Governo e o MpD 20 anos.
É uma mudança com corte no passado — pelo menos no discurso.
Mais emoção, menos engenharia
Se há coisa que distingue esta entrevista da de Ulisses Correia e Silva é o tom.
Aqui há mais emoção, mais crítica, mais vontade de mobilizar. Menos tecnocracia, mais política. Funciona? Sim.
Resolve? Ainda não se sabe.
Mensagem final: mudar tudo… com calma
No fundo, Francisco Carvalho está a dizer ao país:
“Isto assim não pode continuar”
“Vamos mudar o Estado”
“Confiança é a chave”
E até aqui, muitos concordam. O problema é o passo seguinte.
Porque entre querer mudar tudo… e conseguir mudar alguma coisa… vai uma longa tavessia administrativa.
Conclusão à moda da casa
Francisco Carvalho traz algo que faz sempre falta em campanha: ambição
Mas deixa algo que também faz falta: detalhes
E no meio disso tudo fica a pergunta inevitável: Cabo Verde precisa mesmo de um novo Estado…ou de fazer funcionar melhor o que já tem?
Fonte
Entrevista de Francisco Carvalho ao jornal Expresso das Ilhas, edição nº 1274, de 29 de abril de 2026, conduzida por André Amaral.