
Há entrevistas que esclarecem. Outras que complicam. E depois há aquelas — como a de Ulisses Correia e Silva ao” Exepresso das ilhas”— que fazem as duas coisas ao mesmo tempo… com um sorriso institucional.
Por: Eduino Santos
O primeiro-ministro decidiu tranquilizar o país: Cabo Verde não precisa ser resgatado. Ainda bem. Que alivio. Já estávamos a imaginar helicópteros da ONU, da FMI a sobrevoar Achada Santo António com Olavo Correia a descer em rapelé com uma poção milagrosa e espalhando os seus muitos títulos.
Mas calma. O país não precisa de resgate… precisa de ser “bem governado”. Ou seja: está tudo bem, mas podia estar melhor. Muito melhor. Eventualmente melhor… no próximo mandato. Mesmo sem a poção de Olavo Correia que se recusou a passar pelo crivo dos eleitores.
O Estado é pesado… mas ninguém quer fazer dieta
Num momento raro de sinceridade política, Ulisses admite que o Estado cabo-verdiano está “grande” e “pesado”. O que se pode traduzir para : a máquina não anda, mas também ninguém quer mexer nas engrenagens. E a solução apresentada é simples, sem mágicas: “Ajustamentos”.
Que, em linguagem governamental, pode significar tudo — desde reformas profundas… até mudar a posição da secretária no gabinete do PM.
Fica a dúvida: o Estado vai mesmo emagrecer ou apenas trocar de roupa larga?
Promessas com quilómetros acumulados
Economia azul. Transição digital. Energias renováveis. Habitação. Transportes.
Se isto lhe soa familiar, não é déjà vu — é mesmo o mesmo menu de sempre.
Nada contra. São boas ideias. O problema é que algumas já vêm sendo servidas há anos… e ainda estão “em preparação”.
É como entrar naquele restaurante onde o prato demora tanto que o cliente começa a duvidar se a cozinha existe.
Maioria absoluta:
O líder do Movimento para a Democracia não esconde: quer maioria absoluta. Diz que é para garantir estabilidade.
Não entendemos por que pede. Se todos os governos desde 1991 foram de maioria absoluta. Nunca se governou em Cabo Verde sem maioria absoluta. Os governos, basicamente, sempre governaram em “modo avião”. E o eleitorado sempre votou para os governos não terem a desculpa de dizer que “ a oposição não lhe deixou governar”.
Por isso é que ciclicamente manda governos para casa e chama a posição para governar.
País está bem… mas não convém olhar muito de perto
Ulisses pinta um Cabo Verde estável, credível e bem posicionado no mundo.
E é verdade — até certo ponto.
Mas a entrevista evita mergulhar nos temas que fazem o cidadão comum franzir a testa:
custo de vida, transportes interilhas, desigualdades, serviços públicos.
É uma espécie de fotografia com filtro: tudo bonito, desde que não se dê zoom.
No fundo, o que o primeiro-ministro pede é simples: deixem-me continuar.
Não há ruptura, não há choque, não há revolução. Há continuidade. Com ajustes. Eventualmente melhorias. Com sorte, algumas novidades.
É o equivalente político de dizer: “não mexe muito… que assim já funciona mais ou menos”.
Conclusão à moda da casa
Ulisses Correia e Silva não está a vender um novo caminho.
Está a vender confiança no mesmo caminho.
E isso pode chegar… ou pode já não chegar.
Porque há uma pergunta que ficou no ar — e que nenhum slogan consegue evitar:
Cabo Verde não precisa ser resgatado…
mas será que já está a ser bem governado o suficiente?
Fonte: Entrevista de Ulisses Correia e Silva ao jornal Expresso das Ilhas, abril de 2026, conduzida por André Amaral.