
Em Cabo Verde, onde os números costumam ser mais sólidos do que os discursos, a habitação voltou ao centro da disputa política. Francisco Carvalho, presidente do PAICV, prometeu que, se chegar ao poder, vai “acabar com as barracas e casas de bidões” no país. A frase é curta, eficaz e politicamente poderosa. Já a sua execução… nem tanto. E pode ser verificável.
Por isso defendi que as propostas no estilo José Maria Neves , amor para todos e Ulisses Correia e Silva a felicidade ou engolimos ou não . Não passam pelo escrutínio de quanto custa fazer ou pelo orçamento geral de estado. Mas Carvalho insiste em fazer promessas que fazem a aritmética entrar em ação. Se ele prometesse vida eterna, estaria sem tema para este artigo .
O retrato do país real
Mas vamos começar com dados de quem já fez as contas: os dados do Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde ajudam a colocar os pés no chão. O Censo 2021 aponta para cerca de 3.000 barracas, um número que praticamente duplicou em relação a 2010, período que abarca o último mandato de José Maria Neves e o primeiro de Ulisses Correia e Silva.
A maior concentração está nas zonas urbanas, com destaque para Praia e Mindelo. Não é um cenário de grande escala comparado com outros países, mas também não é um detalhe estatístico que se resolva com boa vontade e conferências de imprensa.
Entre demolir barracas e construir soluções
Acabar com barracas implica muito mais do que retirá-las do mapa. Significa substituí-las por habitação digna, o que exige construção em massa, requalificação urbana e, sobretudo, resolver problemas antigos como o acesso à terra e a legalização fundiária.
Em números pouco simpáticos, isso pode representar um investimento entre 6 a 12 mil milhões de escudos. Um valor que não cabe facilmente em discursos de campanha, mas que aparece sempre quando se tenta passar do anúncio à obra.
O tempo político não é o tempo da realidade
Há ainda um detalhe inconveniente: os mandatos duram cinco anos, mas os problemas estruturais não respeitam calendários eleitorais. Experiências internacionais mostram que erradicar habitação precária é um processo longo, frequentemente medido em décadas.
Em muitos casos, o melhor que se consegue é reduzir significativamente — não eliminar por completo. Daí que a promessa levante perguntas simples e incómodas: acabar quando, como e com que recursos?
Uma promessa forte, um plano por explicar
Do ponto de vista político, a proposta do PAICV é eficaz. Fala diretamente a um problema real, mobiliza eleitores urbanos e cria uma imagem de mudança. O problema é que, até agora, não veio acompanhada de um plano detalhado, nem de um cronograma claro, nem de um modelo de financiamento robusto, nem de um nome pomposo como o “Casa Para Todos “ de JMN.
E em Cabo Verde, como a experiência ensina, é precisamente aí que muitas promessas começam a perder consistência.
A promessa certa… no formato errado?
Do ponto de vista político, a promessa é eficaz: toca num problema real
fala diretamente aos mais vulneráveis cria uma imagem de mudança forte
Mas falta o essencial: plano detalhado, cronograma ,modelo de financiamento
Sem isso, a promessa corre o risco de entrar na longa lista cabo-verdiana de intenções que soam bem… até encontrarem o Orçamento Geral de Estado.
Entre a ambição e o slogan
Ninguém discute que o país precisa reduzir a habitação precária. A questão está na diferença entre reduzir de forma consistente e “acabar com”. A primeira é difícil, mas plausível. A segunda é politicamente sedutora — e tecnicamente exigente ao ponto de exigir mais do que vontade.
No fim, a promessa fica no limiar entre a ambição legítima e o marketing político. Porque, em Cabo Verde, as barracas não desaparecem com palavras. Mas as palavras, essas, continuam a aparecer com uma facilidade impressionante em cada ciclo eleitoral.
Eduino Santos