Governar em tempos de choque: desculpa conveniente ou prova de liderança?

20/04/2026 22:23 - Modificado em 21/04/2026 16:40
Bandeira de Cabo Verde

Num mundo cada vez mais instável, onde crises deixaram de ser exceção para se tornarem regra, governar deixou de ser um exercício de planeamento linear para passar a ser um teste permanente de resistência, adaptação e, sobretudo, coragem política.

Cabo Verde não está isolado dessa realidade. A pandemia, a seca prolongada e, mais recentemente, as tensões geopolíticas com impacto direto nos mercados energéticos — agravadas pela guerra envolvendo o Irão — colocaram pressão adicional sobre uma economia pequena, aberta e altamente dependente do exterior.

Perante esse cenário, o balanço apresentado pelo Governo liderado por Ulisses Correia e Silva insisti numa ideia central: governou sob choque. E é verdade. Os dados e o contexto internacional não deixam margem para dúvida. O aumento dos preços da energia, a inflação importada e a instabilidade das cadeias de abastecimento criaram um ambiente onde qualquer erro de gestão poderia ter consequências profundas.

Mas a questão que se impõe não é apenas se houve crise.

A questão é: como se governa em crise?

O Executivo apresenta resultados: contenção da inflação, manutenção de algum crescimento económico, proteção social reforçada e medidas para amortecer o impacto dos choques externos. Redução de impostos sobre energia, apoios às famílias mais vulneráveis e esforço para manter o país funcional num contexto adverso são frequentemente apontados como provas de uma governação ativa.

Aqui, importa fazer uma distinção essencial.

Há governos que usam a crise como álibi.
E há governos que a usam como teste.

No caso cabo-verdiano, a narrativa oficial inclina-se claramente para a segunda opção: a crise como terreno onde se mede a competência. E, de facto, gerir um país com limitações estruturais, dependente de importações e exposto às flutuações globais, exige mais do que gestão técnica — exige capacidade política para decidir sob pressão.

No entanto, a linha entre explicação e desculpa é fina.

Se por um lado é legítimo reconhecer que o contexto internacional condiciona fortemente os resultados, por outro, é igualmente legítimo questionar até que ponto essa mesma crise não tem servido para relativizar problemas internos persistentes: custo de vida elevado, desigualdades regionais e fragilidades estruturais da economia.

A governação em tempos difíceis deve ser, acima de tudo, transparente na prestação de contas. Porque resistir à crise não é apenas sobreviver — é transformar dificuldade em oportunidade.

E é aqui que entra o verdadeiro teste de liderança.

Capacidade de antecipação.
Coragem para tomar decisões impopulares.
E, sobretudo, visão para preparar o país para choques futuros — que, inevitavelmente, virão.

Cabo Verde atravessa um momento em que o mundo redefine equilíbrios energéticos, económicos e geopolíticos. Neste contexto, a governação não pode limitar-se a gerir impactos. Tem de construir resiliência.

Por isso, mais do que perguntar se o Governo enfrentou crises, talvez a pergunta mais justa seja outra:

Saiu o país mais forte depois delas?

A resposta não está apenas nos relatórios oficiais. Está na capacidade real de o país aguentar o próximo choque — sem depender sempre das mesmas justificações.

Eduino Santos

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