
Num mundo cada vez mais instável, onde crises deixaram de ser exceção para se tornarem regra, governar deixou de ser um exercício de planeamento linear para passar a ser um teste permanente de resistência, adaptação e, sobretudo, coragem política.
Cabo Verde não está isolado dessa realidade. A pandemia, a seca prolongada e, mais recentemente, as tensões geopolíticas com impacto direto nos mercados energéticos — agravadas pela guerra envolvendo o Irão — colocaram pressão adicional sobre uma economia pequena, aberta e altamente dependente do exterior.
Perante esse cenário, o balanço apresentado pelo Governo liderado por Ulisses Correia e Silva insisti numa ideia central: governou sob choque. E é verdade. Os dados e o contexto internacional não deixam margem para dúvida. O aumento dos preços da energia, a inflação importada e a instabilidade das cadeias de abastecimento criaram um ambiente onde qualquer erro de gestão poderia ter consequências profundas.
Mas a questão que se impõe não é apenas se houve crise.
A questão é: como se governa em crise?
O Executivo apresenta resultados: contenção da inflação, manutenção de algum crescimento económico, proteção social reforçada e medidas para amortecer o impacto dos choques externos. Redução de impostos sobre energia, apoios às famílias mais vulneráveis e esforço para manter o país funcional num contexto adverso são frequentemente apontados como provas de uma governação ativa.
Aqui, importa fazer uma distinção essencial.
Há governos que usam a crise como álibi.
E há governos que a usam como teste.
No caso cabo-verdiano, a narrativa oficial inclina-se claramente para a segunda opção: a crise como terreno onde se mede a competência. E, de facto, gerir um país com limitações estruturais, dependente de importações e exposto às flutuações globais, exige mais do que gestão técnica — exige capacidade política para decidir sob pressão.
No entanto, a linha entre explicação e desculpa é fina.
Se por um lado é legítimo reconhecer que o contexto internacional condiciona fortemente os resultados, por outro, é igualmente legítimo questionar até que ponto essa mesma crise não tem servido para relativizar problemas internos persistentes: custo de vida elevado, desigualdades regionais e fragilidades estruturais da economia.
A governação em tempos difíceis deve ser, acima de tudo, transparente na prestação de contas. Porque resistir à crise não é apenas sobreviver — é transformar dificuldade em oportunidade.
E é aqui que entra o verdadeiro teste de liderança.
Capacidade de antecipação.
Coragem para tomar decisões impopulares.
E, sobretudo, visão para preparar o país para choques futuros — que, inevitavelmente, virão.
Cabo Verde atravessa um momento em que o mundo redefine equilíbrios energéticos, económicos e geopolíticos. Neste contexto, a governação não pode limitar-se a gerir impactos. Tem de construir resiliência.
Por isso, mais do que perguntar se o Governo enfrentou crises, talvez a pergunta mais justa seja outra:
Saiu o país mais forte depois delas?
A resposta não está apenas nos relatórios oficiais. Está na capacidade real de o país aguentar o próximo choque — sem depender sempre das mesmas justificações.
Eduino Santos