Por : Eduino Santos

Há uma ironia que circula há anos nos corredores da política internacional: “os Estados Unidos têm uma sorte extraordinária — sempre que exportam liberdade, encontram petróleo.”
Naturalmente, Washington garante que se trata apenas de coincidência histórica. Mas a sucessão de episódios ao longo das últimas décadas levanta inevitavelmente algumas sobrancelhas.
O primeiro grande exemplo moderno remonta a 1953, no Irão. O primeiro-ministro Mohammad Mossadegh tinha cometido um pecado político difícil de perdoar no tabuleiro geopolítico da época: decidiu nacionalizar o petróleo iraniano, até então dominado por interesses ocidentais.
A resposta veio através da Operação Ajax, organizada pela CIA em coordenação com os serviços britânicos. Em 19 de agosto de 1953, Mossadegh foi derrubado e o xá Mohammad Reza Pahlavi regressou ao poder com apoio ocidental. A democracia iraniana desapareceu por um tempo — mas o petróleo permaneceu, curiosamente, em boas mãos.
Quase quarenta anos depois, a história voltou a cruzar-se com a geologia. Em 1991, os Estados Unidos lideraram uma coligação internacional para expulsar o Iraque de Kuwait, depois da invasão ordenada por Saddam Hussein. A operação militar conhecida como Guerra do Golfo foi lançada em janeiro daquele ano sob a presidência de George H. W. Bush.
O Kuwait foi libertado — e manteve intactas algumas das maiores reservas petrolíferas do planeta. Mais uma coincidência geopolítica que a história registou.
Mas foi em 2003 que a ironia ganhou proporções quase literárias. Sob a liderança de George W. Bush, os EUA invadiram o Iraque a 20 de março de 2003, alegando a existência de armas de destruição maciça. As armas nunca foram encontradas. O que existia — e isso ninguém contestava — eram alguns dos maiores campos petrolíferos do mundo, como Rumaila, Kirkuk ou West Qurna.
O regime de Saddam Hussein caiu, o país mergulhou numa longa instabilidade política, mas os campos petrolíferos continuaram lá, firmes e estratégicos.
O padrão repetiu-se novamente em 2011, na Líbia. Uma intervenção militar liderada pela NATO, iniciada em 19 de março de 2011, contribuiu para a queda do regime de Muammar Gaddafi. O país possuía — e continua a possuir — as maiores reservas de petróleo de África. Depois da intervenção, a Líbia entrou num prolongado período de fragmentação política, mas a importância estratégica do seu petróleo manteve-se inalterada.
A repetição destes episódios ajuda a explicar por que razão a frase irónica continua a circular no debate internacional. Não porque prove uma teoria conspirativa simples — a política global raramente é tão linear — mas porque revela uma constante difícil de ignorar: os grandes conflitos e intervenções internacionais parecem ter uma estranha tendência para ocorrer em regiões onde a geologia foi particularmente generosa em hidrocarbonetos.
Talvez seja apenas coincidência histórica. Talvez seja pura lógica estratégica. Ou talvez, como observou um analista com humor amargo, o problema não seja o petróleo aparecer onde os Estados Unidos intervêm.
O verdadeiro mistério é que os Estados Unidos parecem intervir exatamente onde existe petróleo.