Luísa Morazzo: “O Samba Tropical não pode morrer”

18/02/2026 12:39 - Modificado em 18/02/2026 13:11

Luísa Morazzo, fundadora e ex-presidente do Grupo Samba Tropical, afirmou, no programa Café Central da RTC, que o grupo carnavalesco é uma instituição histórica e cultural de Mindelo que não pode desaparecer. Considera inaceitável que o grupo não tenha desfilado no Carnaval deste ano e atribui essa situação a falhas da atual direção.

Segundo ela, houve incapacidade de organização e de mobilização interna, o que levou à ausência do grupo na avenida. Critica a gestão atual por não ter preservado o legado construído ao longo de décadas e defende que o Samba Tropical deve ser recuperado e voltar a desfilar, por representar uma parte essencial da identidade do carnaval mindelense.

Em síntese: o grupo tem um valor histórico e cultural incontornável; a não participação é vista como um retrocesso grave; a responsabilidade é atribuída à direção atual; e há um apelo à revitalização e continuidade do Samba Tropical.

Há algo profundamente perturbador em ver o Samba Tropical — um dos nomes mais sonoros do Carnaval de Mindelo — transformado em silêncio. Não o silêncio artístico, daqueles que antecedem a bateria, mas um silêncio administrativo, protocolar, quase burocrático. Um silêncio feito de decisões, ofícios, reuniões e acusações cruzadas.

Foi neste vazio que ecoaram as palavras de Luísa Morazzo: o grupo não pode morrer. A frase tem o peso de quem o fundou, o construiu e o viu tornar-se património afetivo de uma cidade inteira. O Samba Tropical nasceu em 1988 e, desde então, habituou o público a associar o seu nome à grandiosidade, à cor e à presença incontornável na avenida.

Sem nunca se transformar num grupo orientado exclusivamente para a competição, desde 1988 apresentou uma fórmula própria de financiamento para garantir a sua participação: quem desfilava pagava o próprio traje, complementado por uma ativa campanha de angariação de fundos.

Mas este ano o grupo não saiu. E não foi por falta de vontade de desfilar — foi por excesso de conflito. Luísa Morazzo observa que hoje “é cheques para cá, cheques para lá”, deixando implícito que o problema não será apenas financeiro. Estranha, igualmente, que a direção tenha alinhado com a decisão do Conselho Deliberativo da LIGOC sem consultar a Assembleia Geral do grupo. Esse órgão considerou não existirem condições para o desfile oficial, invocando exigências estruturais e financeiras não satisfeitas, entre as quais infraestruturas adequadas e garantias de apoio que permitissem preservar a qualidade e a sustentabilidade do espetáculo.

A Câmara Municipal respondeu com firmeza: o Carnaval iria realizar-se e não poderia ficar refém de divergências internas entre grupos. Reconheceu dificuldades — agravadas por fenómenos climáticos ocorridos meses antes — mas rejeitou a narrativa de impossibilidade e insinuou motivações político-partidárias na decisão de não desfilar.

O resultado foi um desfile incompleto: alguns grupos participaram, outros não, e o público assistiu a um Carnaval marcado menos pela competição estética e mais pela divisão institucional.

É neste contexto que a crítica de Luísa Morazzo à atual direção do Samba ganha contornos mais complexos. O seu apelo não é apenas sentimental; é também um questionamento da estratégia adotada. Ao afirmar que o grupo não pode morrer, ela sugere que nenhuma disputa — financeira, administrativa ou política — deveria impedir a sua presença na avenida.

Por outro lado, a ausência de um grupo histórico não é um detalhe técnico. É um abalo simbólico. Num carnaval construído sobre identidades coletivas, cada grupo representa um bairro, uma memória, uma forma de pertença. Quando um deles não aparece, a festa perde não apenas espetáculo, mas parte da sua narrativa.

Talvez por isso o debate tenha rapidamente ultrapassado a questão organizativa e se tenha transformado numa disputa sobre legitimidade: quem fala em nome do Carnaval? Os grupos? A LIGOC? A Câmara? As figuras históricas?

No meio desse confronto, o Samba Tropical tornou-se menos um protagonista e mais um campo de batalha simbólico.

No final, ninguém saiu totalmente vencedor. A Câmara realizou o Carnaval, mas sob contestação. Os grupos que não desfilaram mantiveram a sua posição, mas pagaram o preço da ausência. E o público ficou com uma sensação difícil de traduzir: houve festa, mas faltou algo essencial.

Luísa Morazzo tem razão numa questão fundamental: instituições culturais não deveriam desaparecer por causa de conflitos conjunturais. Mas também é verdade que nenhuma instituição sobrevive apenas porque alguém decretou que não pode morrer.

Sobrevivem quando conseguem adaptar-se, renovar-se e, sobretudo, voltar à rua.

Porque, no Carnaval de Mindelo, a vida mede-se em desfiles — e um grupo só existe plenamente quando a bateria toca, as alas avançam e a cidade reconhece, naquele momento, que a tradição continua viva.

Este ano, o Samba Tropical não morreu. Mas também não viveu. E ficou a saber que já existem substitutos para o ligar que ocupa há 38 anos !

Eduino Santos 

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