Opinião: Quando o padrinho entra na sala: a diplomacia segundo Trump

22/01/2026 13:51 - Modificado em 22/01/2026 13:51

Por Eduino Santos

Houve um tempo — não muito distante — em que os Estados Unidos eram vistos como o arquiteto da ordem internacional. Hoje, pela boca de aliados históricos, surgem descritos como outra coisa bem diferente: um chefe de gangue mal-humorado, com acesso ao botão nuclear.

Não é um cartoon político. É uma leitura saída do próprio Parlamento britânico, que considerou que Donald Trump age como um gangster internacional. A escolha da palavra não é inocente — nem exagerada. Gangsters não negociam tratados; cobram proteção. Não respeitam alianças; exigem lealdade. Não acreditam em regras; acreditam em medo.

Trump, afinal, nunca escondeu o gosto por esse modelo. A política externa, sob a sua batuta, deixou de ser diplomacia para se tornar extorsão em escala global: tarifas como tacos de basebol, sanções como ameaças sussurradas ao ouvido, e tratados tratados como contratos descartáveis.

Se Londres descreve o método, Ottawa confirma o resultado.

Quando o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, declara que “a nossa relação com os EUA acabou”, não está a dramatizar. Está a fazer um obituário político. E o defunto não é apenas uma relação bilateral — é a ideia de que amizade, cooperação e confiança ainda contam na Casa Branca.

Convém sublinhar: o Canadá não é Cuba, nem o Irão, nem a Venezuela. É vizinho, aliado, parceiro económico, cúmplice histórico. Se até aqui a amizade acabou, o que sobra para o resto do mundo? Um recibo. E a conta a pagar.

O mais perverso desta viragem não é o confronto aberto, mas a normalização da intimidação. Trump não quer liderar; quer dominar. Não quer aliados; quer clientes. Não quer consensos; quer submissão. O mundo, para ele, não é uma comunidade internacional — é um território de cobrança.

E assim, ironicamente, os Estados Unidos passam a ser tratados pelos próprios aliados com a linguagem antes reservada a autocratas: imprevisíveis, perigosos, pouco confiáveis. Um feito histórico — transformar o líder do “mundo livre” num problema a ser contido.

O mais trágico? Não é Trump sozinho. É o silêncio cúmplice de uma parte do Ocidente que, com medo de perder favores, aceita que a política externa seja regida pela lógica do submundo: ou pagas, ou levas.

Talvez seja isso que mais assusta Londres e Ottawa. Não o gangster em si — mas a constatação de que ele já não está sozinho na sala.

Comente a notícia

Obrigatório

Publicidades
© 2012 - 2026: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.