Suspensão de vistos para os EUA: Cabo Verde o aluno aplicado que acabou reprovado

15/01/2026 12:42 - Modificado em 15/01/2026 14:21

Cabo Verde passou anos a confundir diplomacia com vassalagem. Aplaudiu Donald Trump, alinhou com o seu discurso, calou quando devia falar — e agora recebe o prémio: suspensão de vistos de imigração, famílias bloqueadas, sonhos adiados. Eis o resultado da diplomacia do lambe-botas.

No caso Alex Saab, o arquipélago mostrou ao mundo que estava disposto a suspender soberania para agradar Washington. Prendeu, reteve e entregou um homem a pedido da administração Trump, mesmo sob protestos jurídicos e políticos internacionais. No fim, os EUA trocaram Saab por prisioneiros… e Cabo Verde ficou com a factura.

Na linguagem da diplomacia há um ditado cruel: “o cemitério está cheio de amigos dos Estados Unidos.” Cabo Verde acaba de ganhar a sua lápide. Depois de anos a tentar ser o melhor aluno da moral trumpista, foi tratado como mais um país descartável.

Os nossos antepassados avisaram: galinha que quer honra não bota o rabo ao léu. Nós botámos — e agora estamos surpreendidos por estar ao frio.

Por: Eduíno Santos

Se existe um manual sobre “como ser amigo fiel e ser ignorado com elegância”, a diplomacia cabo-verdiana estudou-o página por página — tal como um aluno aplicado que copia a lição mas falha no exame. A política externa de Cabo Verde em relação aos Estados Unidos andou anos a fio a recitar o mantra da “aliança estratégica” como se fosse ouro, enquanto do outro lado do Atlântico essa mesma aliança era tratada com a delicadeza de um papel de trânsito.

Não faltaram oportunidades para demonstrar essa subserviência: cada passo diplomático parecia um curvar-se elegante, sempre à espera de um tapinha nas costas que nunca veio. E quando se fala em Trump — e não confundir com a moral americana, pois essa existe em vários modelos, alguns bem melhores do que outros — parece que o padrão de conduta foi simplesmente ignorar as lições ancestrais que nos disseram que “galinha que quer honra não bota o rabo ao léu”.

Exemplo emblemático dessa diplomacia de colarinho branco ocorreu em 2020, quando Cabo Verde, sob o olhar atento da Administração Trump, deteve o empresário Alex Saab durante uma escala na ilha do Sal e, sem pestanejar, decidiu acolher os desígnios de Washington. Saab, figura controversa ligada ao governo venezuelano, acabou por ser extraditado para os Estados Unidos — um capítulo que colocou o arquipélago no centro de uma disputa internacional.

A detenção foi amplamente contestada por juristas e instâncias internacionais que apontaram para ilegalidades no procedimento — inclusive a decisão de tribunais superiores e organismos regionais que exigiram sua libertação. Ainda assim, a resposta diplomática cabo-verdiana foi mais um aceno do que um grito por dignidade.

Os EUA, por sua vez, não se coibiram de agradecer publicamente a “colaboração” cabo-verdiana no caso Saab, como se fosse um troféu de boa vontade, ignorando o desgaste político e jurídico que o episódio causou em Praia.

E agora, em 2026, o mesmo aliado que recebeu tantos elogios decidiu impingir uma medida que frustra sonhos e planos de milhares de cabo-verdianos: a suspensão indefinida do processamento de vistos de imigração para cidadãos de 75 países, entre os quais Cabo Verde. Essa política, liderada novamente pela administração Trump e justificada por critérios de “carga pública”, deixará famílias separadas, projetos imigratórios em espera e um sentimento generalizado de perplexidade sobre a real “amizade” estadunidense.

Ora, não se trata de um episódio isolado: imagine você passar anos a sorrir para alguém que, sempre que olha para si, demonstra prioridade zero. A suspensão dos vistos atinge na sensibilidade mais profunda da sociedade cabo-verdiana — um povo cujos antepassados conquistaram o tão falado American dream com trabalho árduo, suor e contribuições inegáveis para o tecido social dos EUA. E ainda assim, o reconhecimento oficial vem sob a forma de uma carta de recusa, assinada com a mesma tinta do “America First”.

A ironia maior é que, enquanto diplomatas cabo-verdianos faziam figura de “melhor aluno da turma” na moral Trumpista, a administração que louvavam — e por vezes endeusavam — arquitetava uma política que fere diretamente os interesses de cidadãos que construíram pontes e não muros.

Há um chavão na diplomacia internacional que diz: “o cemitério está cheio de amigos dos EUA” — e, sim, Cabo Verde parece estar a caminho do mesmo destino, sepultado sob memórias de boas intenções mal dirigidas. Talvez a próxima lição seja redescobrir a velha sabedoria popular: honra não é algo que se implora — é algo que se impõe.

Por: Eduíno Santos

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