
Samantha Rodrigues, filha de cabo-verdianos e nascida na Holanda, não conseguiu ficar indiferente às imagens de destruição provocadas pela tempestade Erin em São Vicente. Mesmo a milhares de quilómetros de distância, o impacto da tragédia foi profundamente sentido pela diáspora cabo-verdiana na Holanda.
“Na Holanda sentimos isso. Foi impossível ficar parada”, conta. A emoção rapidamente se transformou em ação. Juntamente com parceiros e amigos, o Grupo Força Cabo Verde, mobilizaram apoios para ajudar as populações afetadas.
Entre eles estava Randolph Nahar, de origem surinamesa, que já desenvolvia projetos em São Vicente, incluindo um complexo habitacional. Foi Randolph quem lançou a primeira campanha de angariação de fundos através da plataforma GoFundMe.
Em entrevista ao NN, disse que a meta inicial era modesta: cinco mil euros, suficientes para dar uma ajuda imediata, sobretudo em alimentação. No entanto, em apenas três dias, o valor ultrapassou os 100 mil euros, surpreendendo os próprios organizadores. “A partir daí, sentimos uma responsabilidade enorme. Transparência e planeamento tornaram-se essenciais”, explica Fernanda.
Segundo Jorge da Veiga, o grupo definiu desde cedo uma estratégia dividida em três fases. A primeira centrou-se na resposta alimentar imediata. Ainda antes de o dinheiro do GoFundMe chegar a Cabo Verde — um processo que demoraria várias semanas — a equipa decidiu avançar com recursos próprios. Em São Vicente, Carlos, um dos membros locais, coordenou a produção e distribuição de cerca de 2.500 a 3.000 marmitas nas primeiras semanas, garantindo apoio rápido às famílias mais afetadas.
A segunda fase foi dedicada ao envio de ajuda material. Com o apoio de várias organizações e da comunidade na Holanda, foram preparados e enviados dez contentores de donativos, sobretudo com bens essenciais.
Dois desses contentores foram destinados a Santo Antão e Santa Catarina, zonas também carenciadas. O envio implicou custos elevados e, mais uma vez, o grupo decidiu avançar com fundos próprios, investindo entre 20 e 25 mil euros para garantir que a ajuda chegasse sem atrasos.
A terceira fase, ainda em curso, foca-se na reabilitação das condições de vida das famílias mais vulneráveis. Isso inclui a oferta de equipamentos básicos como fogões, frigoríficos, utensílios de cozinha e apoio à reconstrução e melhoria de habitações. Paralelamente, o grupo começou a trabalhar numa vertente mais estrutural, envolvendo engenheiros e especialistas para analisar problemas de drenagem, saneamento e ordenamento urbano em São Vicente.
“Percebemos que não se trata apenas de ajudar hoje, mas de pensar o futuro”, afirma Fernanda. A experiência no terreno revelou realidades chocantes, mesmo para quem tem raízes no país. “Vi situações de pobreza que nunca imaginei ainda existirem em 2025: famílias sem acesso a água, saneamento ou condições mínimas de habitação.”
Para garantir transparência, foi criada a plataforma Força São Vicente, com presença online e um site próprio onde são divulgadas todas as ações, relatórios e objetivos do grupo. Newsletters também são enviadas regularmente à comunidade na Holanda, mantendo os doadores informados sobre a aplicação dos fundos.
Apesar do reconhecimento, o caminho não tem sido isento de críticas, sobretudo vindas da própria diáspora. Fernanda reconhece que lidar com desconfiança e comentários negativos foi um desafio adicional. “Há quem critique sem perguntar primeiro qual é o nosso objetivo. Mas o que nos move são as pessoas no terreno, os abraços, a gratidão e a consciência de que estamos a fazer a diferença.”
Atualmente, o grupo continua a apoiar diretamente várias famílias, sobretudo na reabilitação de casas, acompanhando os casos até ao fim. “Não se trata apenas de entregar material. Há custos de transporte, mão de obra, acompanhamento. É um trabalho completo”, sublinha.
Para o futuro, a ambição é maior: contribuir para soluções estruturais que reduzam o impacto de fenómenos extremos como a tempestade Erin.
A análise das linhas de água, do saneamento e do ordenamento urbano é vista como fundamental para evitar que tragédias semelhantes se repitam. “Cada chuva forte não pode continuar a ser uma catástrofe. Isto não é só uma questão social, é também um problema de desenvolvimento e investimento”, conclui.
NN