
Por estes dias, quem atravessa o Mindelo pode ter a sensação de que nada aconteceu. As luzes regressaram, os palcos montaram-se, a música voltou a ocupar as ruas. A cidade reencontra-se com aquilo que sempre foi: uma terra onde Deus derramou alegria com generosidade. E isso, convenhamos, é absolutamente normal em São Vicente.
O que não é normal é a pressa em fingir normalidade quando a memória ainda está encharcada.
As inundações de 11 de Agosto de 2025 não foram um episódio menor nem um capricho do clima. Foram um choque. Mortes. Casas invadidas pela água, bens destruídos, famílias desalojadas, infraestruturas fragilizadas, feridas abertas que não se curam com um cartaz de festa nem com um fogo-de-artifício. Foi por isso que o Governo declarou estado de calamidade.
E aqui começa o problema.
Desde esse dia, o Notícias do Norte fez aquilo que um jornal deve fazer numa democracia: perguntar. Perguntar quanto dinheiro entrou, de onde veio, como foi usado, quem decidiu, quem fiscalizou. Pedidos de transparência simples, legítimos, indispensáveis. Perguntas que não são contra o Governo, mas a favor do país.
A resposta? O silêncio.
Um silêncio pesado, institucional, que contrasta com o barulho das colunas e o entusiasmo dos anúncios festivos. De repente, parece que tudo está bem. Parece. Mas parecer não é ser.
Um território em estado de calamidade pode passar cinco dias em festa para assinalar a passagem de ano? Pode, claro que pode. A alegria também é uma forma de resistência. O problema não está na festa. Está na banalização da calamidade.
Se estamos em calamidade, então exigem-se contas. Procedimentos adequados a situação.
Se não estamos em calamidade, então por que razão ela foi declarada — e mantida?
Quando o Governo banaliza o estado de calamidade, ele próprio esvazia o seu sentido. E, ao fazê-lo, coloca os cidadãos num limbo desconfortável: não sabemos se o dinheiro gasto para dar alegria ao povo não fazia falta para resolver os problemas concretos deixados pela água de 11 de Agosto. Não sabemos porque não nos dizem. E não nos dizem porque não prestam contas.
E assim fica difícil confiar.
São Vicente sempre soube rir mesmo quando dói. Sempre dançou com o vento contrário. Mas também sempre soube distinguir festa de esquecimento. O que se pede não é silêncio nem contenção cultural. O que se pede é clareza, transparência e respeito pela inteligência dos mindelenses.
A alegria não apaga a lama.
A música não substitui a prestação de contas.
E o silêncio oficial não é resposta.
Perante isto, entrego o caso à NASA, não por ironia gratuita, mas porque talvez seja preciso um olhar de fora — quase extraterrestre — para compreender como, num espaço tão pequeno, uma calamidade desaparece do discurso sem nunca ter sido verdadeiramente resolvida.
São Vicente merece festa.
Mas merece, antes de tudo, verdade.
Eduino Santos