
Os dois partidos da oposição, a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) e o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) em São Vicente manifestou forte contestação à decisão da Câmara Municipal de promover cinco dias de festas de fim de ano na Rua de Lisboa, considerando a iniciativa “desajustada, excessiva e insensível” num contexto em que a ilha continua sob estado de calamidade e com muitas famílias ainda a enfrentar as consequências da tempestade de agosto.
A Direção Regional da União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID) em São Vicente manifestou profundo descontentamento e veemente discordância face ao anúncio da realização de cinco dias de festas de fim de ano, promovidas pela Câmara Municipal de São Vicente, numa altura em que a ilha permanece formalmente sob estado de calamidade.
Em declaração à comunicação social, o presidente regional da UCID, Anilton Andrade, considerou politicamente inadequada e moralmente insensível a decisão anunciada pelo presidente da Câmara Municipal, na presença do Primeiro-Ministro, o que, segundo o partido, torna o chefe do Governo cúmplice da opção tomada.
“O estado de calamidade em São Vicente está em vigor desde 12 de agosto, na sequência da tempestade de grandes proporções que, no dia 11 de agosto de 2025, provocou mais de uma dezena de mortes, destruição significativa de infraestruturas e deixou centenas de famílias em situação de elevada vulnerabilidade”, começou por explicar o responsavel politico.
A UCID lembra que, apesar da mobilização solidária de instituições nacionais, internacionais e da diáspora, muitas famílias ainda não conseguiram retomar uma vida digna. Nesse contexto, o partido defende que se impõe contenção, responsabilidade e prioridade absoluta ao apoio social, à reconstrução e à reposição das condições mínimas de vida.
“À luz destes princípios, a realização de cinco dias consecutivos de festividades é incompatível com o espírito e a letra do estado de calamidade”, sublinhou, considerando a opção socialmente injustificável e juridicamente questionável.
A UCID esclarece que não se opõe à realização do tradicional Réveillon, desde que limitado a um único momento simbólico de celebração, organizado com sobriedade, moderação orçamental e respeito pelo quadro legal excecional. “O que rejeitamos é o excesso, quando a prioridade deve continuar a ser a reconstrução da ilha e o apoio às famílias afetadas”, frisou.
Também o vereador sem pelouro do PAICV na Câmara Municipal de São Vicente, António Duarte, criticou duramente a decisão, que diz ter sido conhecida através de um evento partidário. O autarca classificou a medida como unilateral, de grande impacto logístico, financeiro e social, tomada sem discussão prévia nos órgãos municipais competentes.
António Duarte considera que a iniciativa revela um estilo de governação autocrático e um desrespeito pelos vereadores, pelas instituições municipais e pela população. Para o eleito do PAICV, a dimensão e a oportunidade do evento não se coadunam com o contexto de recuperação pós-tempestade nem com as prioridades atuais da ilha.
Questionado sobre a justificação do presidente da Câmara, que defendeu os cinco dias de festa como forma de dar alegria à população e celebrar a resiliência dos mindelenses, a oposição entende que um único dia de celebração seria suficiente. “Celebrar a passagem de ano é tradição e um dia basta para simbolizar a nossa resiliência. Cinco dias são um completo exagero e uma desproporcionalidade”, afirmou.
Relativamente ao financiamento do evento, alegadamente assegurado por empresas e empresários, sem recurso aos cofres municipais, a oposição mostrou-se cética. “Cinco dias de festa implicam custos elevados e, historicamente, os valores associados a estas iniciativas não são tornados públicos”, apontou António Duarte, defendendo maior transparência.
Ambas as forças políticas garantem que irão questionar formalmente a decisão na próxima sessão da Câmara Municipal e nas reuniões da Assembleia Municipal. “Somos frontalmente contra esta opção e continuaremos a defender uma gestão baseada no bom senso, na sensibilidade social e no respeito pelas reais necessidades da população de São Vicente”, concluiu António Duarte.
NN