Saúde Universal, Mas Com Cartão Gold

13/12/2025 10:23 - Modificado em 13/12/2025 10:23

Por Eduíno Santos | Notícias do Norte

Dizem-nos, com ar solene e voz de conferência internacional, que em Cabo Verde não existe saúde para ricos e saúde para pobres. Dizem-no como quem recita um dogma: bonito, redondo, constitucional. Só há um pequeno problema — a realidade teima em não concordar. E quem o diz é Artur Correia especialista em Saude Publica numa entrevista ao Expresso das Ilhas , lembrar que entre  outros cargos foi Diretor Nacional da Saúde  (posição de liderança no Ministério da Saúde), um dos principais cargos técnicos na área da gestão e definição de políticas de saúde.

Na teoria, todos somos iguais perante o Serviço Nacional de Saúde. Na prática, alguns são mais iguais do que outros, sobretudo aqueles que podem pagar 3 500 escudos por uma consulta de especialidade numa clínica privada, mais 2 000 escudos só para  omédico  “ver  os resultados”. Resultados esses  provenientes de exames  que, ironia das ironias, muitas vezes   são feitos no estrangeiro, custam dezenas de contos e não são cobertos pela Previdência Social. Universal, sim senhor. Mas com escala em Lisboa. E cartão 24 no laboratório em Cabo Verde ,na hora certa!

O discurso oficial garante-nos que o SNS é o maior prestador de cuidados de saúde do país. É verdade. Também é verdade que os mesmos médicos do SNS atendem, à tarde, nas clínicas privadas. A diferença? No público, o cidadão espera meses. No privado, espera… o tempo de passar o cartão Gold ou um simples desde que tenha dinheiro na conta. Não é milagre — é mercado.

A fila invisível

O pobre — especialmente o pobre sem INPS — não entra numa fila. Entra numa lista de espera existencial. Espera meses por uma consulta. Meses por exames. Meses por um diagnóstico. Às vezes, espera tanto que a doença resolve-se sozinha. Ou pior: resolve o cidadão.

Enquanto isso, o cidadão com carteira confortável não conhece filas, conhece agendas. Marca, entra, sai, diagnostica, trata. Não porque seja mais doente, mas porque pode pagar para não adoecer à espera.

Ver com clareza  é um luxo?

Tomemos um exemplo simples, quase banal: ver. Um cidadão desempregado, sem INPS, precisa de óculos.
Consulta /particular: 3 000 escudos.
Armação e lentes: 18 000 escudos.

Total: 21 000 escudos para exercer um direito humano básico — enxergar.
Pergunta simples: como faz?
Resposta honesta: não faz.

Vê mal, tropeça na vida, força os olhos, força o futuro. Porque, aparentemente, em Cabo Verde, ver bem é um privilégio económico, não um direito social.

Universal, mas seletiva

Não se trata de negar os méritos do SNS. Ele existe, resiste, salva vidas, segura o país nos momentos em que o privado não quer, não pode ou não lucra. Promoção da saúde, prevenção, internamentos — tudo verdade. Mas fingir que o acesso é igual para todos é um exercício de retórica que só funciona em discursos e relatórios.

Na rua, no centro de saúde, no hospital, a verdade é outra:

  • quem pode pagar, escolhe;
  • quem não pode, espera;
  • quem espera demais, sofre;
  • quem sofre em silêncio, desaparece das estatísticas.

A grande mentira confortável

Dizer que não há uma saúde para ricose outra para os pobres é uma mentira confortável. Confortável para quem decide. Confortável para quem fala. Confortável para quem nunca precisou escolher entre comprar óculos ou comida. Ou se endividar para fazer uma análise que tem que ser feita no exterior , ou pela urgência tem que ser feita nos laboratórios privados .

A saúde em Cabo Verde é universal no papel, mas estratificada na prática. Não por maldade declarada, mas por um sistema que normalizou a desigualdade como se fosse eficiência.

Enquanto não tivermos coragem de assumir isso, continuaremos a aplaudir discursos e a ignorar filas. E, como sempre, os pobres continuarão a pagar com tempo, dor e silêncio aquilo que os ricos pagam com dinheiro.

E não, isso não é ideologia.
É apenas a realidade — essa coisa teimosa que não aceita ser tratada numa clínica privada.

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