
Por Eduíno Santos
Há amores que duram para sempre. Outros duram pouco. E depois há aquele amor de 13 anos, entre a EasyJet e Cabo Verde, que finalmente virou casamento. José Lopes, o “matchmaker” português da companhia, esperou mais do que muita gente espera por um visto europeu, e agora aparece de peito feito a anunciar: “Queremos ser líderes em Cabo Verde.” Tradução simultânea? A EasyJet está a afiar a faca e a pôr as companhias concorrentes a tremer.
Sim, Cabo Verde, o arquipélago do “verão o ano inteiro”, virou a nova menina dos olhos de uma das maiores low-cost do planeta. Nem mais, nem menos: quase 500 mil passageiros no primeiro ano, e já a roçar nos números da Madeira, onde a mesma empresa anda a mandar no mercado como se fosse uma tia rica que pagou toda a festa da família.
Cabo Verde na rota da massa: turismo barato, mochila às costas e sem casaco de inverno
A ideia da EasyJet é simples: trazer meio mundo para aqui, pagar menos, beber grogue, fazer stories no Instagram, apanhar sol sem filtro e voltar para casa com a sensação de que descobriu “as Caraíbas africana”.
Nada contra — melhor que venham com dinheiro no bolso, que fiquem nas casas de hóspedes da ilha, que provem cachupa, que comprem pulseirinha artesanal e não fiquem fechados em resorts a comer croissants industriais. Porque, sejamos honestos: Cabo Verde precisa de turistas que gastem cá dentro, não de turista que desembarca, come, dorme e vai embora sem gastar 100 escudos fora do hotel.
Uma low-cost líder abre portas a esse novo tipo de viajante. O da sardinha, mas com carteira.
África Subsaariana a ver e aprender: Cabo Verde abre a porta e o resto que empurre
Durante anos, ninguém queria pôr as asas sobre o nosso mar aberto. Era complicado. Era caro. Era arriscado. Agora a EasyJet chega com tecnologia, confiança e rotas reforçadas como se dissesse: “Calma, África, não é só para quem tem dinheiro voar até aqui.”
Se isto correr bem — e tudo indica que vai correr — outras low-cost vão querer um pedaço de África também. E quem é que abre o caminho? Nós. Este arquipélago do tamanho de uma cabeça de alfinete, mas com ambição de tubarão.
Mas, nem tudo é sol e bilhete barato: cuidado, Cabo Verde!
Por isso não podemos cair na cantiga do bandido. Se amanhã a EasyJet espirrar, Cabo Verde apanha gripe. Se a empresa ficar líder absoluta e depois decidir subir preços, estamos fritos que nem peixe de São Pedro. Por isso, é bom que o Governo não durma na sombra da tamareira e trate de reforçar:
aviação nacional,
ligações inter-ilhas,
e infraestruturas para receber turistas sem virar “resortland”.
Porque liderança não se agradece, negocia-se. Isto por que no fim das contas…a EasyJet não fez caridade. Fez negócio. Cabo Verde não ganhou uma madrinha; ganhou uma parceira exigente. Se soubermos jogar bem, isto vai render empregos, turismo de verdade, voos baratos para a diáspora e uma nova era no turismo africano.
Se formos ingênuos, vamos virar dependentes de uma empresa que pode levantar voo sem olhar para trás. Por agora, celebremos: é verão o ano inteiro, e com bilhetes acessíveis. Torçamos para que o futuro seja tão leve quanto uma bagagem de mão.
Até lá, embarque imediato para a nova era do turismo cabo-verdiano. Sem extras pagos.