Por : Eduino Santos

Há artistas que passam pelo mundo como quem cumpre uma função. E há outros, poucos, que o transcendem, abrindo portas onde antes só havia paredes. Vasco Martins pertence a este segundo grupo: o dos que não apenas fazem música, mas revelam mundos.
Em Cabo Verde, muitas vezes olhamos para o imediato, para o que faz barulho, para o que aparece nas redes ou enche salas por uma noite. Talvez por isso Vasco tenha sido, por vezes, silenciosamente ignorado nas ilhas — não por falta de grandeza, mas por excesso dela. A sua música não pede atenção… exige alma.
Uma espiritualidade que antecede o tempo
O traço mais marcante de Vasco Martins nunca foi a técnica, o virtuosismo ou o experimentalismo — ainda que os tenha de sobra. O que o distingue é a profunda espiritualidade que atravessa toda a sua obra. Ele fez da música um instrumento de busca, de meditação, de encontro com aquilo que não tem nome.
As suas sinfonias, carregadas de uma vibração cósmica rara, juntam o pulsar das ilhas ao silêncio da vastidão. Não são apenas composições: são estados de consciência.
É essa espiritualidade que faz com que Vasco pareça um músico para além do seu tempo, mas que, paradoxalmente, conseguiu viver plenamente no seu tempo. Nunca fugiu do mundo. Pelo contrário: mergulhou nele para encontrar a harmonia que muitos nem sequer sabiam que procuravam.
Um cabo-verdiano universal
Talvez seja mais fácil valorizar o que vem de fora. Mas a verdade é que, enquanto alguns lhe viravam costas ou o reduziam ao rótulo de excêntrico, as melhores orquestras sinfónicas do mundo executavam as suas obras com respeito absoluto. Lá fora, percebiam o que por vezes escapava nas ilhas: Vasco Martins não era apenas um compositor cabo-verdiano — era um compositor universal, com voz própria e inconfundível.
As suas sinfonias transportam Cabo Verde para o mundo sem perder a raiz, reinventando-as em linguagem sinfónica, minimalista, transcendente. São testemunho de que as ilhas não são apenas território de mornas e coladeiras, mas também de vanguardas e ousadias.
O riso simples e enigmático
Quem teve o privilégio de partilhar momentos com Vasco sabe: ele tinha um riso que era quase uma assinatura. Fácil, simples e ao mesmo tempo enigmático. Um riso que parecia vir de alguém que já tinha visto mais do que dizia, alguém que compreendia a vida com uma serenidade quase mística.
Talvez esse riso fosse a melhor síntese da sua obra: aparente simplicidade por fora, profundidade sem fundo por dentro.
A obra que sobrevive
O tempo é implacável com quase tudo — mas não com todos. Há criadores que deixam de existir fisicamente, mas permanecem através da vibração que imprimiram no mundo. Vasco Martins é um desses raros. A sua música continuará a ecoar muito depois de nós, como ecoa hoje o canto de mestres que nunca envelhecem.
Se Cabo Verde, por vezes distraído, demorou a reconhecê-lo como merece, a história encarregar-se-á de corrigir essa falha. Porque a espiritualidade que ele deixou nas suas composições não se apaga: expande-se.
Vasco Martins não nos deu apenas música. Deu-nos uma forma de estar no mundo, uma forma de ouvir aquilo que não se vê.
E isso — isso sim — é eternidade.