O Carnaval não pode ser moeda de troca, nem palco para guerras fabricadas

20/11/2025 10:48 - Modificado em 20/11/2025 10:48

Em São Vicente já vimos muita coisa, mas poucas conseguem igualar o espetáculo paralelo que alguns dirigentes carnavalescos decidiram montar este ano. E não, não se trata de fantasia nem de enredo: é política pura, mas mascarada de indignação cultural.

Os quatro grupos – Monte Sossego, Vindos do Oriente, Samba Tropical e Estrela do Mar – anunciaram que não vão desfilar no Carnaval 2026. A bomba caiu, sim, mas o barulho foi menor do que o esperado. Talvez porque a população já percebeu que há decisões que cheiram mais à “pré-campanha” do que a confete.

O presidente da Câmara, Augusto Neves, reagiu sem rodeios. E convém dizer isto com todas as letras, porque às vezes a memória coletiva sofre amnésias seletivas:

Foi Augusto Neves quem tirou o Carnaval de São Vicente da agonia que vivia há muitos anos e abriu as portas para a modernidade, inclusive abdicando a CMSV da organização do desfile oficial dando autonomia e responsabilidade aos grupos.

Foi a sua equipa que deu estrutura, financiamento, segurança e visibilidade a uma festa que, antes, vivia à míngua. Os grupos cresceram, profissionalizaram-se e ganharam dimensão graças às condições criadas pela autarquia. Isto não é opinião – é história.

Hoje, alguns desses mesmos grupos aparecem com uma lista de exigências que até faria corar um ministro das Finanças: sedes imediatas, estaleiros milagrosos, estudos de impacto económico feitos em tempo recorde e verbas extraordinárias… num ano em que a ilha ainda está sob estado de calamidade após a tempestade Erin.

E quando essas exigências “caem mal”, concluem que a culpa é da Câmara. É simples, é cómodo e, acima de tudo, é politicamente útil.

Mas o detalhe mais saboroso desta novela é outro: O Conselho Deliberativo da LIGOC, que assumiu a liderança do protesto, não tem funções executivas, nem pode representar institucionalmente a Liga. Foi preciso a própria Direção Executiva vir a público dizer o óbvio: aquilo que decidiram não é vinculativo.
Ou seja, a rebelião nasceu em terreno pantanoso e juridicamente improvisado.

Perante isto, Augusto Neves faz aquilo que se espera de quem governa: assume a posição e recusa transformar o Carnaval num palco de manipulação partidária. Garante que haverá desfile – com quem quiser desfilar, com quem tiver trabalho feito, com quem entender que a cultura não é arma de arremesso eleitoral.

E se for preciso revisitar o protocolo com a LIGOC, revê-se. Se for preciso voltar ao modelo anterior, volta-se. O Carnaval não pode ser sequestrado por quatro grupos nem por estratégias de bastidores.
O Carnaval pertence à ilha, ao povo, à alma de São Vicente.

O que este episódio mostra é que alguns dirigentes confundiram responsabilidade com capricho e gestão com folclore administrativo. Pedem que a Câmara pague dívidas que deviam ter sido tratadas dentro das próprias estruturas. Exigem soluções que eles mesmos nunca foram capazes de construir.

E depois lamentam-se em público como se fossem vítimas.

São Vicente merece melhor. Merece seriedade, compromisso e respeito pela sua maior manifestação cultural. O Carnaval não pode ser moeda de troca, nem palco para guerras fabricadas.

E quem tentar transformar a avenida numa arena política vai acabar a desfilar sozinho –
Isto, sim, será um espetáculo digno de nota.

NN

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