Por Eduíno Santos

A história da qualificação de Cabo Verde para o Mundial de 2026 é feita de talento, sacrifício e fé — mas também de contrastes. No meio da euforia que atravessou o país, da Praia a Roterdão, das ilhas ao frio europeu onde vivem tantos dos nossos, o selecionador Pedro “Bubista” Brito, numa entrevista ao Expresso das ilhas deixou cair uma verdade dura e necessária: “Os jogadores dos outros países viajam em executiva e os nossos viajam normalmente.”
Não era um lamento. Era uma radiografia.
Entre um voo noturno e um treino matinal, Bubista falou do que poucos querem ver — a desigualdade silenciosa que continua a marcar o futebol africano. Enquanto seleções com orçamentos milionários viajam com conforto e regressam com tempo para recuperar, os cabo-verdianos somam horas em voos apertados, passam noites entre escalas e chegam exaustos. E mesmo assim, ganham.
“Regressas e na maioria das vezes perdes o lugar na tua equipa”, confessou o treinador. A frase resume o dilema do jogador cabo-verdiano: representar o país é um orgulho, mas também um risco. Um risco de ficar no banco do clube, de ver o contrato em perigo, de pagar em cansaço o amor à bandeira.
Bubista fala com a autoridade de quem conhece os dois mundos — o do sonho e o da sobrevivência. E a sua mensagem vai além da logística: é um pedido por dignidade. Não se trata de luxo, mas de respeito. O respeito por uma seleção que chegou onde ninguém esperava, e que agora precisa de condições à altura do seu feito.
Cabo Verde entrou no mapa do futebol mundial. Agora é hora de garantir que os nossos jogadores não continuem a viajar no mesmo lugar estreito de sempre, enquanto carregam nas pernas o peso de um país inteiro. O futuro começa quando tratamos os nossos heróis como tal — não apenas quando marcam, mas quando voltam cansados e ainda assim vestem a camisola com orgulho.
No fundo, Bubista não pediu conforto. Pediu justiça. E essa, no futebol ou na vida, é sempre a vitória mais difícil.