Entre previsões frias e realidades quentes, um país que insiste em crescer à sua maneira.

Nos seus mais recentes relatórios, o Fundo Monetário Internacional volta a traçar um cenário global de riscos e incertezas: tensões geopolíticas, choques climáticos, mercados financeiros em ebulição e até um possível fim do “boom” da inteligência artificial. Tudo isso pode abalar a economia mundial, dizem os peritos.
Mas ao ler essas projeções, fica a sensação de que o FMI fala de um planeta diferente daquele onde Cabo Verde existe.
Sim, é verdade que o arquipélago não vive numa bolha — depende do turismo, das importações e do crédito externo, e portanto sente cada tremor da economia global. Contudo, os problemas que o FMI enumera parecem escritos para potências industriais e tecnológicas, não para uma pequena economia insular que luta diariamente com desafios muito mais básicos: energia cara, transportes inter-ilhas precários, produção interna insuficiente e uma juventude que procura oportunidades fora do país.
Quando o FMI fala em “restaurar a confiança dos mercados” e “salvaguardar a sustentabilidade da dívida”, está, na prática, a repetir o velho mantra da disciplina fiscal. Cabo Verde conhece bem esse discurso — foi ele que sustentou anos de contenção orçamental, mesmo quando o investimento público em setores estratégicos poderia gerar mais crescimento e emprego. A austeridade pode equilibrar contas, mas raramente cria prosperidade.
É certo que há riscos reais para o país: a escalada dos preços das matérias-primas, os impactos das alterações climáticas e o aumento das taxas de juro internacionais. Mas também há oportunidades que o FMI tende a ignorar — como a economia azul, a energia renovável, as novas tecnologias digitais e o talento da diáspora cabo-verdiana. O crescimento sustentável de Cabo Verde não virá de “regras comerciais claras” ditadas por fora, mas sim de uma estratégia nacional baseada em inovação, inclusão e soberania económica.
Cabo Verde precisa de parceiros, sim, mas sobretudo de visão própria.
Enquanto o FMI olha o mundo de cima, de Washington, nós, aqui nas ilhas, sabemos que o crescimento não se mede apenas em percentagens do PIB. Mede-se na qualidade de vida, na confiança das famílias, na capacidade de criar riqueza sem depender eternamente da ajuda externa.
A economia cabo-verdiana não precisa de previsões frias; precisa de coragem política para investir em si mesma.
E talvez esse seja o verdadeiro desafio: crescer à nossa maneira, mesmo quando os Outlooks do FMI não nos incluem nas suas equações.
Eduino Santos
pesquisa IA