
Depois de um ano marcado por bombardeamentos incessantes, massacres e uma dor que atravessou fronteiras, o tão aguardado acordo de paz para Gaza foi finalmente assinado. As sirenes silenciaram, as armas calaram-se, e um frágil cessar-fogo trouxe um sopro de esperança a uma terra devastada. Mas a pergunta que ecoa, fria e implacável, é esta: era preciso deixar morrer tanta gente para chegar até aqui?
As imagens que correram o mundo são o testemunho de uma tragédia humana que dificilmente se apaga. Cidades reduzidas a escombros, famílias inteiras soterradas, crianças arrancadas à vida antes de aprenderem a dizê-la, mães a reconhecerem os filhos pelos fragmentos de roupa. De Gaza a Telavive, a dor não teve fronteiras. O ódio também não.
E agora, com o acordo em papel e as promessas em discursos, chega a contabilidade sombria: milhares de mortos, a maioria civis — mulheres e crianças. Reféns libertados regressam, muitos em caixões, transformados em símbolos de um conflito que nunca poupou inocentes.
Os líderes falam em reconstrução, em “nova era”, em “compromisso com a paz”. Mas será possível paz depois de tanta desumanidade?
Como reconstruir quando as pedras ainda guardam o eco dos gritos, quando cada sobrevivente é também um sobrevivido? Como voltar a confiar quando cada gesto político parece ter custado uma vida?
Há paz nos papéis, mas nas ruas reina o luto.
E talvez o mais cruel seja perceber que a diplomacia chegou tarde demais — tarde demais para os que morreram debaixo dos escombros, tarde demais para os reféns que voltam sem vida, tarde demais para um mundo que, mais uma vez, assistiu à barbárie em direto e nada fez para detê-la.
O acordo para Gaza é, sem dúvida, um avanço — mas é também uma ferida aberta. Uma paz que não apaga o sangue, que não consola as mães, que não justifica o preço pago.
Porque paz verdadeira só existirá quando a vida voltar a ter valor, quando o sofrimento de um lado não for argumento para o massacre do outro.
Até lá, o que se celebra hoje não é uma vitória. É apenas o fim — temporário — de um horror que nunca devia ter começado.
Eduino Santos