
Uma investigação espanhola alerta para um fenómeno em expansão no arquipélago: mulheres estrangeiras, sobretudo espanholas, viajam em busca de relações sexuais com homens locais, muitos deles adolescentes.
Cabo Verde é conhecido como um dos destinos turísticos mais procurados de África, graças às praias paradisíacas, resorts de luxo, gastronomia rica e diversidade cultural. Mas, por trás desta imagem idílica, cresce uma realidade preocupante: o turismo sexual feminino.
De acordo com uma reportagem do jornal espanhol El Español, o arquipélago tornou-se um “ímane” para mulheres estrangeiras, em particular espanholas, que procuram envolver-se com homens cabo-verdianos. Em muitos casos, tratam-se de jovens em situação de vulnerabilidade social.
“Há mulheres que vêm especificamente à procura de sexo com homens jovens. Outras não admitem, mas fazem-no”, revelou Milagros García López, freira espanhola que trabalha há mais de duas décadas no Mindelo. Segundo a missionária, algumas mulheres chegam a criar vínculos emocionais e mantêm relações à distância, enviando dinheiro mensalmente.
No TikTok, multiplicam-se vídeos de viajantes a partilhar experiências no arquipélago, muitas vezes com humor e emojis, mas que deixam entrever o fenómeno. “Parece que este é o único sítio onde há mais prostitutos do que prostitutas”, ironizou uma jovem espanhola, citada pelo jornal.
A reportagem sublinha ainda que alguns destes jovens, conhecidos como “Western Union boys”, acabam por depender financeiramente das turistas, numa relação de troca que vai muito além do período de férias.
Um relatório da organização cabo-verdiana Morabi, publicado em 2023, já alertava para a existência de relações entre estrangeiras e adolescentes do sexo masculino nas ilhas do Sal e de São Vicente. Apesar disso, não existem números oficiais, e o Turismo de Cabo Verde recusou-se a comentar o caso ao jornal espanhol.
O contexto social ajuda a explicar o fenómeno: 25% da população cabo-verdiana vive em pobreza estrutural e o desemprego jovem ultrapassa os 20%. Para muitos rapazes, envolver-se com turistas significa garantir apoio financeiro para estudar ou ajudar a família.
“Para estes jovens, estar com um turista é algo normal. Significa ter as despesas asseguradas durante algum tempo”, explicou uma trabalhadora humanitária espanhola que atua em projetos de prevenção no arquipélago.
ONG e associações locais tentam intervir, sobretudo junto de meninas e adolescentes em risco, mas os recursos continuam a ser insuficientes perante a dimensão do problema.
NN/www.nit.pt