
O Presidente da República, José Maria Neves, alertou esta terça-feira, 23 de setembro, que uma das consequências “mais graves” da falta de diálogo entre os atores políticos é a caducidade generalizada dos mandatos de órgãos externos ao Parlamento, alguns já ultrapassando “mais de um ciclo completo”.
Numa conferência de imprensa realizada no âmbito de um ciclo de auscultações com partidos políticos, instituições religiosas, sociedade civil e antigas figuras do Estado, o chefe de Estado mostrou-se preocupado com a crescente tensão política no país, mas afastou a existência de uma crise institucional.
“Não nos deve iludir essa normalidade. Precisamos refletir sobre a inclusividade do sistema e reforçar permanentemente os alicerces da democracia”, sublinhou.
Com legislativas e presidenciais marcadas para 2026, Neves considerou “imperioso” que os partidos privilegiem a serenidade e o diálogo. “As eleições devem ser um momento de elevação cívica, em que se confrontam ideias, propostas e projetos para o país”, afirmou, frisando que o direito da oposição tem assento constitucional e a sua observância é essencial para a vitalidade democrática.
O Presidente elogiou ainda a tradição cabo-verdiana de eleições pacíficas, alternância regular de poder e reconhecimento dos resultados sem contestação.
José Maria Neves defendeu também a “despartidarização séria e consequente” da Administração Pública, lembrando que a máquina do Estado deve servir a Nação e não “interesses partidários de circunstância”.
“O mérito, a competência e o desempenho profissional devem sobrepor-se à lealdade política. Só uma Administração Pública sólida, imparcial e centrada no interesse público pode assegurar políticas consistentes e serviços de qualidade, independentemente das alternâncias de poder”, destacou.
Na perspetiva do chefe de Estado, Cabo Verde precisa de desbloquear reformas estruturantes há muito adiadas, nomeadamente nas áreas do Estado, saúde, educação, transportes e relações externas.
Neves defendeu ainda que a sociedade civil, a juventude e a diáspora devem integrar esse esforço coletivo. “A democracia não se esgota nos partidos e nas instituições. Precisa da energia crítica dos jovens, da participação ativa das organizações cívicas, da criatividade cultural e do contributo da diáspora”, concluiu.
NN/Inforpress