
O pró-reitor para Avaliação, Comunicação e Eficiência da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), João Almeida, alertou esta semana para uma situação crítica de saúde pública que afeta o edifício da Faculdade de Educação e Desporto em São Vicente, onde funciona o curso de Enfermagem, na ilha de São Vicente. Segundo o responsável, águas negras têm emergido de uma cave do antigo edifício do Cortiço, construído nos anos 60, que nunca foi devidamente conectado à rede pública de esgotos.
Em conferência de imprensa, João Almeida explicou que desde o início a universidade tem mantido contactos com várias instituições para encontrar uma solução. “Desde aquela altura, o professor Albertino aqui presente entrou em contacto com várias instituições para resolver a questão. Estivemos em contacto permanente com a Câmara Municipal. Em abril, o professor Albertino escreveu uma carta ao presidente da Câmara e, posteriormente, à presidente da Assembleia Municipal para alertar para a questão de saúde pública”, afirmou.
O pró-reitor destacou que a Uni-CV contratou uma empresa especializada e elaborou um plano hidrossanitário, com o apoio do diretor de património da instituição, para executar a ligação à rede de esgoto. Todas estas informações, frisou, foram partilhadas com a autarquia. “Não estamos em desobediência civil, estamos num estado de desespero para resolver um problema de saúde pública. A lei é clara quanto às responsabilidades da Câmara Municipal neste domínio”, sublinhou João Almeida, referindo-se à Lei nº 75/IX/2020, de 2 de março, que atribui às câmaras municipais o dever de zelar pelo bem-estar físico e mental das comunidades.
De acordo com Almeida, a situação é particularmente preocupante por envolver um espaço onde circulam diariamente mais de 400 pessoas, número que sobe para mais de mil se contabilizadas as visitas de alunos da Escola Industrial e Comercial vizinha.

Problema antigo sem solução definitiva
Albertino Martins, docente da Faculdade de Educação e Desporto da Uni-CV, reforçou as preocupações ao detalhar a origem do problema. Explicou que o antigo edifício do Cortiço, construído na década de 60, estava apenas ligado a uma fossa séptica e não à rede pública de esgotos. Quando o novo edifício foi construído, a universidade solicitou autorização à Câmara para realizar a ligação, mas o pedido foi recusado.
“Estamos a falar de uma infraestrutura que não tem capacidade para acolher toda a produção de águas negras do edifício atual, frequentado diariamente por mais de 600 pessoas. Como resultado, as águas acumulam-se numa cave com dimensões consideráveis, que já chegou a ter dois metros de altura de águas negras. É uma situação alarmante em termos de saúde pública”, alertou Martins.
O docente destacou ainda as consequências visíveis do problema: proliferação de mosquitos que afeta não só o campus universitário, mas também residências e estabelecimentos turísticos da zona. “Os alunos são obrigados a assistir às aulas enquanto matam mosquitos. Temos aqui um curso de enfermagem que promove a saúde pública em Cabo Verde, e vivemos uma realidade que contraria completamente essa missão”, criticou.
Uni-CV avançou com obras por conta própria
Albertino Martins revelou que, apesar de a Câmara ter enviado ocasionalmente carros de saneamento para esvaziar a fossa, tal medida não passa de um paliativo. Perante o silêncio da autarquia após várias cartas enviadas — a última em abril — a Uni-CV decidiu avançar com as obras. “Na nota enviada ao presidente da Câmara garantimos que todas as despesas seriam assumidas pela universidade. Contratualizámos uma empresa de construção civil para realizar a ligação à rede pública no menor espaço de tempo possível e sem custos para a Câmara”, disse.
A obra teve início dentro do campus e avançou para a via pública. Martins esclareceu que a intervenção na estrada foi planeada para o fim de semana, de forma a minimizar constrangimentos no trânsito. No entanto, a fase final da obra, que implicava a escavação do asfalto, foi interrompida por ordem da autarquia.
“Conversámos com o vereador do saneamento e outros técnicos da Câmara, que nos disseram que só o presidente pode resolver a situação. Perante o silêncio, autorizámos a empresa a avançar. Não queremos confronto, apenas queremos resolver um problema grave que afeta toda a comunidade académica e vizinhança”, concluiu.
NN