Covid-19: Consequências económicas em África serão graves e duradouras

9/03/2020 15:22 - Modificado em 9/03/2020 15:22

África tem-se mantido “relativamente resiliente” às infeções pelo novo coronavírus, mas os impactos na economia de um continente fortemente dependente da China já são significativos e poderão piorar, segundo uma análise do sul-africano Institute for Security Studies (ISS).

© Reuters

Embora África tenha sido até agora relativamente resiliente em relação às infeções da Covid-19, o contrário é válido quando se consideram os efeitos económicos. Apesar do impacto nos mercados financeiros ser quase imediato, é provável que as consequências económicas sejam mais profundas e durem significativamente mais tempo”, apontou o centro de pesquisa, numa análise do seu consultor associado Ronak Gopaldas.

O também diretor da consultora especializada em África Signal Risk questionou: “Será que as economias africanas vão resistir ao coronavírus?”

Para Ronak Gopaldas, embora a taxa de infeções em África “tenha sido mínima até à data, está a aumentar a preocupação de que a sua chegada em maior escala seja iminente e que o continente não esteja adequadamente preparado para as suas consequências”.

O analista estimou que uma pandemia “afetaria desproporcionadamente África, dado o seu setor de saúde relativamente subdesenvolvido, infraestruturas insuficientes e fronteiras porosas”.

“As consequências económicas para o continente serão provavelmente graves e duradouras. Muitos dos seus países têm uma elevada dependência das exportações de mercadorias para a China, contas públicas fracas, elevados encargos com a dívida e moedas voláteis, entre numerosas outras fragilidades externas”, acrescentou.

O consultor do centro com sede na África do Sul referiu como uma das primeiras consequências, o enfraquecimento das moedas africanas, com o rand a desvalorizar 5% em relação ao dólar e a moeda zambiana a perder mais de 3% para o dólar.

“Moedas mais fracas significam que o custo do reembolso e do serviço das dívidas em obrigações emitidas em moeda estrangeira aumenta drasticamente”, salientou.

Outro dos impactos significativos na economia africana far-se-á sentir, de acordo com o consultor do ISS, no setor mineiro.

Ferro (África do Sul), cobre (Zâmbia) e petróleo (Nigéria, Angola e Gana) têm sido os setores mineiros mais atingidos, mas o analista do ISS estimou que setores como a aviação, turismo e congressos e hotelaria serão “severamente afetados”, com várias conferências e eventos a serem já cancelados.

África do Sul, Maurícias, Madagáscar, Quénia, Tanzânia e Seicheles, países fortemente dependentes do turismo, deverão ser os mais atingidos.

“É impossível separar completamente os efeitos económicos das questões políticas. Embora o acordo sobre a zona de livre comércio em África (AfCFTA, na sigla em inglês) ainda não tenha arrancado, quaisquer encerramentos de fronteiras ou quedas dramáticas nos volumes de comércio podem deitar por terra as suas ambições e desacelerar o crescimento africano a médio prazo”, frisou, por outro lado, Ronak Gopaldas.

O consultor alertou ainda para a possibilidade de aumento da xenofobia em relação aos asiáticos, situação que, sustentou, “será exacerbada pelo aumento do desemprego e competição por recursos escassos à medida que os volumes de comércio se contraem”.

Ronak Gopaldas considerou ainda que a epidemia de Covid-19 poderá “muito bem ser usada como uma oportunidade para que os líderes em exercício no continente adiem eleições nacionais programadas para 2020, numa tentativa de prolongar os seus mandatos”.

Segundo o Centro para a Prevenção e Controlo de Doenças (AfricaCDC), da União Africana (UA), que coordena a resposta técnica dos países africanos à epidemia, atualmente há 80 casos de infeções pelo novo coronavírus registados em nove países do continente.

A epidemia de Covid-19 foi detetada em dezembro, na China, e já provocou mais de 3.800 mortos.

Cerca de 110 mil pessoas foram infetadas em mais de uma centena de países. Mais de 62 mil recuperaram.

Nos últimos dias, a Itália tornou-se o caso mais grave de epidemia fora da China, com 366 mortos e mais de 7.300 contaminados pelo novo coronavírus, que pode causar infeções respiratórias como pneumonia.

Por Lusa

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