Apresentação do livro “Dr José Baptista de Sousa. O Homem, o Médico e o Militar”, do coronel reformado Adriano Miranda Lima

9/03/2020 13:14 - Modificado em 9/03/2020 13:14

Aceitei fazer a apresentação deste livro do amigo Adriano Miranda Lima por duas razões fundamentais: tratar-se de biografia parcial de um colega de excepcional qualidade profissional e ética, o pedido ter vindo de um amigo que conheci pelos seus escritos sobre a língua e cultura no jornal Terra Nova, que me levou a felicitá-lo através da NET pela pertinência dos temas e o manejo do verbo com a beleza antiga de quem lê livros e preza a língua de Camões, em vez de passar todo o tempo viciado na leitura e visualização de produtos da tecnologia moderna de comunicação. Já vai sendo muito raro vermos nos cafés um livro em cima da mesa – esse sinal de reconhecimento de uma irmandade secreta – ou alguém na rua com um livro debaixo do braço; domina o smartphone, por termos passado a viver num mundo com um palavreado vazio, mas virulentamente contagioso dos que bocejam diante de livros. Outrossim, o amigo é cabo-verdiano e militar e conhece outras margens do Atlântico, pertencemos ao mesmo Grupo de Reflexão para a descentralização e regionalização de Cabo Verde, e somos coautores de dois livros.

Como cabo-verdiano e militar, era a pessoa indicada para falar da faceta militar e de homem do Dr. Baptista de Sousa, dado que a de médico, já é mesmo lendária, tanto os actos e façanhas cirúrgicas e de organização do serviço de cirurgia do hospital de S. Vicente, a ponto de muitos patrícios o terem procurado depois, em Portugal, em demanda da sua competência e perícia medico-cirúrgica.

Devo confessar que, ao terminar a leitura do livro, face às injustiças do poder central devidas à sua verticalidade moral e de caracter, deu-me vontade de proferir um desaforo, mesmo uma má criação. Felizmente, no epílogo da obra, tive a satisfação de saber que, citando as palavras de Miranda Lima, “as veredas da Memória e da Justiça se cruzaram auspiciosamente”. É que, por proposta devidamente fundamentada accionada pelo próprio autor deste livro, o Presidente da República Portuguesa, agraciou o Dr. Baptista de Sousa com a Ordem de Mérito, grau Comendador, na cidade da Praia, em Junho de 2019, na presença do Presidente da República Cabo-verdiana, Primeiros-Ministros dos dois países e familiares do extinto médico-cirurgião.

O Dr José Baptista de Sousa chegou a S. Vicente, integrado no Corpo Expedicionário Português, em 1942, como capitão médico-cirurgião da valência médico-cirúrgica. Nesse Corpo militar vinha também o Dr. Cruz Ferreira, que viria a ser, em 1965, meu professor de Patologia de Doenças Tropicais no curso de Medicina Tropical, e Manuel Ferreira, escritor e jornalista que se dedicou bastante à literatura colonial. Pouco tempo depois, a minha família chegava à mesma ilha, vinda da Brava, mas sem o meu pai, que tinha sido destacado para o Sal para combater uma epidemia de tracoma (virose atacando os olhos) noutro sector do Corpo Expedicionário aí instalado. Os dois Corpos Expedicionários portugueses foram aí colocados para evitar eventual ocupação das ilhas pelos alemães, por exigênca do Reino Unido e Estados Unidos, dado que a simpatia do Governo Português, nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, era para os nazis.

Fui acometido, pouco depois da chegada a S. Vicente, de um sindroma altamente febril que foi tomado por paludismo, pois, nesses tempos, dada a prevalência dessa doença em Cabo Verde, toda a febre alta era sinónimo de paludismo. Como a febre não passava com a terapêutica instituída, o meu médico assistente pediu apoio à equipa médica militar, a qual, com análise de sangue realizada – inexistente em Cabo Verde – diagnosticou febre tifoide. Nessa época ainda não existia antibiótico contra a febre tifoide, e nem o meu pai foi autorizado a vir a S. Vicente tratar do filho. Safei-me da doença, pelo que terão, hoje, de me aturar. Já na década de cinquenta do século passado, a minha irmã Carlota teve uma peritonite secundária a apendicite, e o meu pai, que acabara de chegar de Moçambique, contactou o Dr Baptista de Sousa, que foi à nossa casa, tratou-a, ficando a minha irmã a dever-lhe a vida.

Recordo estes dois factos familiares da minha memória, por a memória ser um capital dos povos e dos indivíduos que funciona como âncora e raízes para não se perder no caos do tempo. Falar do Dr Baptista de Sousa é falar do Homem, do Médico e do Militar, como bem escreveu Miranda Lima, de que tivemos a sorte de beneficiar durante 3 anos em Cabo Verde. A sua competência e perícia como médico-cirurgião eram reconhecidas, portanto, importante na valência da saúde, saúde que é, depois da vida, o supremo bem, tão supremo que condiciona o exercício de todos os outros direitos do homem, sem excluir o próprio direito da vida; reconhece-se, igualmente, a sua postura de homem, digno descendente do antepassado longínquo de Homo erectus, de espinha erecta, direita, vertical, que não rasteja e enfrenta as vilanias da força arbitrária, como ele fez, não renegando os elevados princípios de justiça e verdade que sempre defendeu, mesmo sem ser político praticante.

Iremos ver, neste livro, como o poder autocrático tenta vergar espíritos superiores convidando-os à obediência, à chamada maioria silenciosa, o que não foi possível com o Dr Baptista de Sousa. Maioria silenciosa, atestado de ausência de democracia, cujo silêncio nunca é neutralidade mas sim a aceitação do statu quo … por oportunismo, comodismo ou medo. Como escreveu Ramalho Ortigão, a obediência é dos frutos do despotismo o mais venenoso. O homem que obedece avilta-se; o povo que o
faz degrada-se e dissolve-se.

Constatarão neste livro, em pormenor, o retrato da despedida da ilha reservada ao Dr Baptista de Sousa pelo povo de S. Vicente e autoridades locais, onde se incluiu o deputado por Cabo Verde e o comandante militar, numa manifestação popular jamais igualada da quase totalidade da população da ilha, ao som da morna Engenheiro Humano, que lhe foi dedicada pelo compositor Jorge Monteiro; oferta de um pequeno iate, feito nos estaleiros da ilha, com o nome de Morabeza, da contribuição, por subscrição pública da população e contributo do industrial Manuel de Matos. Essa despedida testemunha bem o carinho da população pelo Dr Baptista de Sousa, que o adorava por tudo quanto fez sem discriminar pobres de ricos e pela estruturação dos Serviços de Cirurgia do velho hospital central da ilha.

De regresso a Portugal, em vez de terem aproveitado da sua experiência e competência colocando-o no Hospital Militar Central, o poder, rancoroso e vingativo por ter assinado um documento da MUD (Movimento de Unidade Democrática, proíobido em 1948 por Salasar) e outros da oposição, foi colocando-o em hospitais regionais, em instituições sem condições para cirurgias de vulto na tentativa, sem sucesso, de vergar e humilhar um cirurgião da sua envergadura reduzido a passar receitas e à burocracia; somente 3 anos após a sua chegada de Cabo Verde é que o Ministro da Guerra se dignou atribuir-lhe um louvor desenxabido pelo seu trabalho em Cabo Verde. Enviado a Goa, em modalidade disfarçada de deportação, como Professor da Escola Médica, onde, à semelhança de Cabo Verde, foi muito apreciado, amado pela população e louvado correctamente pelo Governador-Geral, em moldes semelhantes ao do comandante do Corpo Expedicionário em S. Vicente.

Não vou estender-me muito mais na descrição pormenorizada do livro, por ser muito mais interessante lerem as investigações do autor, os seus saborosos comentários e pertinentes críticas, verem as belas fotos fornecidas por Valdemar Pereira e familiares do Dr. Baptista de Sousa e apreciar o seu estilo conciso e incisivo que a mim faz recordar o dos clássicos franceses dos séculos XVII e XVIII.

Em boa verdade, as melhores homenagens foram da sociedade civil, em S. Vicente e Goa, os louvores do comandante do Corpo Expedicionário em S. Vicente e do Governador-Geral, em Goa, postumamente a atribuição do seu nome ao novo Hospiatl Central de S. Vicente, após a independência, e a condecoração presidencial, também póstuma, com a Ordem de Mérito, em 2019.

O Dr José Baptista de Sousa viveu em S. Vicente um longo período de seca e fome em Cabo Verde, que, face à indiferença do poder central de Portugal, levou à morte por fome de 20% da população. Quem quiser conhecer pormenores dessa hecatombe poderá ler O Processo de Hermano de Pina, subsídios para a história da fome em Cabo Verde, processo promovido por um administrador do Concelho da ilha do Fogo, cujo pai ou avô era íntimo de Salazar, que quis que o meu pai, delegado de saúde na ilha, subtituisse a causa das mortes por fome por “epidemia de diarreia”.

O Dr Baptista de Sousa agravou a sua situação de malquerença governamental por não ter acatado a determinação oficial de nunca escrever nos óbitos morte por fome, pois, quando a causa da morte era fome, exarava sempre morte por “fome crónica”. A coragem de ontem é, realmente, um mérito incobrável.

Certamente que o Dr Baptista de Sousa, mais tarde, em Portugal, sentia saudades da terra crioula e da morabeza da sua gente, saudade que mais não é que o repassar de memórias antigas indelevelmente inscritas na alma.

A terminar reconheço que o Dr. Baptista de Sousa era um cidadão empenhado e de alma aberta. Será que isso o tornou suspeito? Com certeza que sim, porque ainda não se descobriu a fórmula de ser insuspeito e empenhado ao mesmo tempo.

Leiam o livro que bem merece a nossa atenção e agradecimentos ao autor.

Muito obrigado pela vossa atenção.

Parede, Março de 2020

Arsénio Fermino de Pina

  1. Djè Guebara

    Muito obrigado para vôce por dar-nos os melhores conhecimentos das obras beneficas de este grande ilustre doutor que foi Batista de Sousa foi um filho adoptivo para cabo verde e em especial para São Vicente. Nasci em 1952 em São Vicente pois me recordo que a minha mãe jà falecida cuando falava bem de este ilustre doutor as lagrimas saìam dos olhos de ela e eu que era sentimental chorava tambèm como agora mesmo sinto-me tão comovido pelas esas imformações recopiladas. Mais uma vez muito obrigado que me faz recordar naqueles anos que Zizim de Ti-Djò Figuera contava por escritos das obras e dos acontecimentos dos nossos antepasados de são vicente.

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