Mundo-Cão, notícias falsas e pirataria informática

18/02/2020 15:29 - Modificado em 18/02/2020 15:29

Há mesmo vários anos que vi o filme com o título de mundo-cão, que teve grande sucesso de bilheteira por apresentar as facetas mais impressionantes e condenáveis dos hábitos, costumes e comportamentos do homem segundo a sua geografia. Costumes e comportamentos intrigantes e chocantes para quem vive no Ocidente, não obstante alguns se passarem entre nós. O que se passa nos nossos dias parece-nos ainda mais condenáveis, de que temos conhecimento quase instantaneamente por os meios de comunicação serem muitíssimo mais rápidos com os progressos da tecnologia da comunicação, que prometem espiar-nos sem darmos por isso. A televisão foi criada para nos permitir ver à distância. Como George Orwell imaginou no livro 1984, a televisão vai observar-nos enquanto olhamos para o ecrã, e, actualmente, em ecrãs de smartphones. Já estamos expostos a uma torrente de manipulações, publicidade e propaganda altamente direccionada. Basta pensar no modo como, em apenas duas décadas, milhares de muilhões de pessoas passaram a confiar no algorítmo de pesquisa do Google em tarefas mais importantes de todas: procurar informação relevante e fiável. Tanto a China como a Rússia, Israel e USA estão constantemente a melhorar os seus instrumentos de vigilância. Israel, por exemplo – sirvo-me da informação do professor e escritor judeu Noah Harari, de quem já falei noutro texto – tem um sector de alta tecnologia muito activo e uma indústria de cibersegurança de ponta. Actualmente, quando um palestiniano faz uma chamada telefónica, publica qualquer coisa no Facebook ou viaja de uma cidade a outra, o mais provável é que seja monotorizado por microfones, câmaras de video, drones e software com a ajuda do algoritmo da Big Data. Assim, bastam poucos soldados israelitas para controlar cerca de 2,5 milhões de palestinianos na Cisjordânia. O que os palestinianos vivem na Cisjordânia pode ser uma amostra primitiva do que milhares de milhões viverão mais tarde ou mais cedo em todo o planeta; na China, por exemplo, essa época já começou.

O que vos estou relatando dá-nos conta de que a democracia está sendo posta em perigo, havendo necessidade de se inventar uma forma nova de democracia para não passarmos a viver em ditaduras digitais, as quais, de resto, não estão longe, como nos demonstraram os piratas informáticos (harkers); a pirataria informática é apenas uma pequena parte da verdade. Na realidade, vivemos na era da pirataria humana, oficiosa, e, por ora, ilegal de ciberespionagem.

Com a absolvição de Trump pelo Partido Republicano, os Estados Unidos são menos democráticos, e isso é uma tragédia para o campo da democracia em todo o mundo, até por isso dar força a outros rufias do seu tipo. O nacionalismo chauvinista, a religião fundamentalista e a cultura dividem a Humanidade em facções hostis e dificultam muito a cooperação global. Constata-se, nos últimos anos, um incremento de manifestações de antisemitismo, que creio ser uma falsa constatação. O que acontece é uma revolta contra o governo israelita dirigido por Netanyahu, a sua intolerância e violências contra os palestinianos, contra a criação do Estado da Palestina, a instalação de colonatos em território palestiniano e desrespeito das deliberações das Nações Unidas, o que contribuiu para desbaratar toda a simpatia que existia relativamente aos judeus depois do holocausto. E isso acontece graças ao apoio incondicional dos Estados Unidos, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e em meios, o que se agravou com a subida ao poder de Trump, que nada nega a Netanyahu, um extremista da direita com problemas com a justiça.

Falar de mundo-cão no sentido pejorativo, como é costume, é uma ofensa para o cão, esse amigo do homem, face ao que se assiste presentemente do comportamento de muitos governantes e elites predadoras, como diria George Steiner, ensaista, filósofo, linguista, professor de literatura, falecido recentemente com 90 anos, que visitou Portugal em em 2007 para intervir num simpósio organizado pela F. Gulbenkian intitulado “A Ciência tem limites”, cujo título foi ele a propor. Na conversa tida com jornalistas lembrou que “morrem diariamente pessoas de fome e ninguém faz nada”, e não hesitou em confessar, “não percebo como é que ainda não foi assassinado nenhum desses empresários de fábricas e banqueiros que levam empresas e bancos à falência, lançando milhares de funcionários no desemprego, e depois se metem nos seus jactos particulares para irem gozar férias a Barbados”. Infelizmente, esses rufias e barões de partidos políticos fingem nada saber, já terem falhas de memória, e ninguém lhes toca, até porque se munem de uma chusma de bons advogados que se encarregam de os salvar da cadeia.

O mundo está ficando cada vez mais desigual: hoje em dia, os 1 por cento mais ricos do mundo detêm metade da riqueza mundial. Mais alarmante ainda, as cem pessoas mais ricas do mundo, juntas, têm mais dinheiro do que os quatro mil milhões mais pobres! E houve tempo em que se cria que a globalização iria beneficiar grande parte da Humanidade, mas há sinais de uma desigualdade crescente, tanto entre países como no seio das sociedades. No século XXI, porém, os dados (do Google, Facebook, Baidu, etc.) vão suplantar tanto o valor da terra (valor na Antiguidade) como as máquinas (valores na Idade Moderna) como activos mais importantes, e a política será uma luta pelo controlo do fluxo de informação. Se os dados ficarem concentrados em muito poucas mãos, a Humanidade irá dividir-se em espécies diferentes, como sugere Harari. Barafustamos contra as fake news (falsas notícias) quando, em verdade, a maioria das religiões e outras ideologias foram e são falsas notícias que duram para sempre. Há séculos, por exemplo, que os cristãos fecharam-se numa bolha mitológica de autofortalecimento, sem nunca se atreverem a questionar a veracidade factual da Bíblia – o mesmo acontecendo aos muçulmanos com o Alcorão – quando grande parte da Bíblia e do Alcorão e outros textos ditos sagrados podem ser ficção; mas eles podem levar alegria a milhares de milhões de crentes e intelectuais e continuam a encorajar seres humanos a serem compreensivos, corajosos, criativos e, negativamente, até sumamente violentos em sua defesa, á semelhança de outras obras como D. Quixote, Lusíadas, obras de Shakespeare e outras. Os japoneses, outro exemplo, acreditavam que o imperador era Deus. Depois da derrota do Japão, o imperador Hirohito declarou publicamente que não era deus. Algumas notícias falsas duram milhares de anos. O mestre da propaganda nazi, Joseph Goebells, terá explicado o seu método: “uma mentira dita uma vez continua a ser uma mentira, mas uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade”. Nisso se baseiam as fake news.

Afinal, continuamos a viver num mundo cada vez mais desigual, horroroso, decepcionante para os que alimentavam uma evolução mais reconfortante e benéfica para todos, como garantiam os iluministas, o liberalismo e o positivismo científico com o desenvolvimento da escolarização, do saber científico e técnico, da livre circulação e dos contactos entre comunidades, de um aperfeiçoamento regular da civilidade, etc, quando, sem darmos por isso, se meteu a marcha-atrás à evolução para a bestialidade.

Parede, Fevereiro de 2020

Arsénio Fermino de Pina
(Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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